A MÍSTICA DO OLHAR

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“Só se vê bem se pusermos
o coração no olhar para que
o essencial não se torne
invisível aos olhos!”

(Saint Exupéry)

Um olhar pode dizer muitas coisas. Segundo o Aurélio, olhar significa fitar os olhos ou a vista em, mirar, contemplar, olhar de cara, encarar. Esta é uma definição clássica sobre o verbo olhar. Podemos nos guiar por este conceito, mas um olhar transcende muito esta definição.
Escritores, poetas e psicólogos, todos já falaram a respeito dos significados que o olhar traz. Existem incontáveis tipos de olhares. Alguns nos alegram, alguns nos constrangem, alguns nos causam medo. Para mim o mais expressivo é o olhar inocente das crianças que acham que todos são bons e que não há maldade no mundo.
O olhar, acompanhado da ruga na testa, é aquele preocupado com as dificuldades da vida. Com a falta de dinheiro. Com medo de levar chifre. Sei lá! Complicado! O olhar de ternura dos pais ao olhar os filhos, ali, babando de felicidade! O olhar de surpresa, boa ou ruim, faz com que as sobrancelhas se ergam formando um esquisito triângulo na testa. O olhar piedoso de quem se compadece das mazelas do mundo. Uma criança num sinal pedindo esmolas. Um senhor, com as marcas da sua vasta trajetória de vida, à mercê de esmolas numa dessas tantas ruas do mundo. Pessoas sem comida, sem roupas, sem família, sem amor. Sem ninguém a olhar por elas! O olhar mentiroso das pessoas de má fé que, no fundo, enganam a si mesmas. Que, no mais das vezes, não conseguem olhar olhos nos olhos. O olhar tristonho, de pálpebras baixas, que ao se levantarem mostram os olhos rasos de lágrimas. O olhar das pessoas sensíveis. O olhar saudoso de tempos melhores, de amores passados. O olhar curioso, sempre atento ao que ocorre ao seu redor, invadindo a vida das pessoas, seus relacionamentos, afazeres. E tudo o mais que estiver a seu alcance. O olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.
O olhar de ressaca de Capitu, personagem do livro Dom Casmurro, obra imortal de Machado de Assis, que ninguém sabe até hoje se traiu ou não Bentinho com Escobar.
Os românticos veem o olhar sob a ótica do amor, da paixão. “Quero todo o teu olhar no meu/quero todo o teu amor pra mim”. “Este teu olhar, quando encontra o meu, fala de umas coisas em que não posso acreditar”. “Teus olhos são duas contas pequeninas que brilham mais que o luar”.
Um olhar apaixonado há muito ninguém lança pra cima de mim. Buá! Buá! Buá! Mas, quem sabe, um dia ele ainda não vem? A esperança é a última que morre, porém de repente eu morro à míngua e a esperança fica por aí. Valha-me Deus!

jtbarbosa500@yahoo.com.br

Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem,
só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.

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