A PESTE

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“Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”.
O romance de Albert Camus nos revela o mundo e o homem, principalmente na sua natureza, no seu comportamento e nas suas manifestações. É uma revelação dramática, um grito mesmo que brada sobre a vida. Nós somos os protagonistas e podemos ver em cada linha, o desfilar da vida em nossa própria cidade.
No fim da leitura a gente sente um misto de amargura e saudade arrancadas em cada página. A amargura de tantas revelações, que não surpreende na humanidade porque, casualmente, passamos sobre as coisas, numa corrida muito veloz e abstrata. Sim, a abstração leva-nos, talvez pela contingência mesmo da vida, a fugir dos problemas. Talvez a mesma abstração seja do grau de amadurecimento ou de tantas decepções acumuladas. No romance voltamos ao contato com esse mundo ou submundo que, em verdade, é o mais presente. E sentimos saudades de Tarrou, com sua firmeza, Rambert com seu amor, Grand com sua simplicidade e a procura de um ideal, Paneloux e sua crença, Gonzales e seu alheamento, perdido na satisfação pelo futebol e no estoicismo doutor de Rieux. Ver como se mesclam homens, de diferentes pensamentos e ideais, numa luta comum no combate à peste. O encontro desses homens que se entendem nos olhares, minimizam suas aflições e são capazes do sacrifício de suas aspirações em benefício dos pestiferados. Sente-se, ainda, amargura por Cottard, que faz da peste do mundo de luz e, como ele, tantos comerciantes.
Orão não é Argélia, não é uma cidade da África, nem da Terra. É o mundo, é o coração de cada homem. A peste não veio do rato, veio ou ainda vem do homem e é fácil perceber isto. O bem que buscamos une almas numa luta que os eleva e cansa até ao desassossego. Muitos se dão nessa conquista, mas a maior parte é feita de Cottard, é feita de ratos que transmitem a peste ou são mesmo a peste que cerca a cidade, abre valas comuns ou fornos crematórios para eliminar ideais. O mundo está pestiferado. Basta dar uma só olhada, um giro de cabeça à nossa volta. Quantos homens estão cheios de gânglios ou pulmões espumantes, tornam uma cidade sitiada, triste, sem luz e à beira da morte?
A Peste é livro para não ser esquecido, pois ele ensina a vida, mas que nos dói tanto, mas é a vida a cada dia mais real.

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• Esta crônica encontrei perdida em uma gaveta, uma folha já encardida. Creio que deve remontar à década de 1970 quando eu não fazia uso de computador para digitalizar e imprimir meus trabalhos. É antiga, mas o que senti naquela ocasião não é o pior do que sinto hoje diante do coronavírus e pela situação do meu País com seus homens gananciosos pelo poder, só pelo poder.
JNM

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