A QUEDA DE SEGÓIA

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Crônica publicada na edição nº 6 do jornal Nosso Tempo em 19 de abril 1997

Há várias décadas os habitantes do Vale eram governados por Segóia, que ali aportara insidiosamente, determinado a fundar um rico império pessoal. Valeu-se da divisão entre os locais para se lançar como uma sombra, que de sombra nada teve na medida em que tomou para si as rédeas e emparelhou aqueles que dele achavam aproveitar-se. Entre seus iguais, mostrou-se mais astuto e deles tirou o poder alcançado com a lança estrangeira, ao se fazer mais que uma arma de conquista e reclamar para si o exercício de fato que não obtivera de direito.

Havia no Vale a ilusão de que mudanças ocorreriam e a fortuna finalmente sorriria para os seus habitantes, do que se valeu Segóia para manter-se no poder. Vendeu a imagem de realizador, a partir do seu progresso pessoal, e, encastelado no burgo, fez expandir para os feudos a sua verdadeira obra, a fusão da Fazenda Pública com as suas próprias. Da riqueza, fez consolidar o seu império; da ignorância, extraiu todas as vantagens da ilusória imagem de realizador; da subserviência, formou fileiras; da miséria, usurpou o apoio comprado à fome do dia-a-dia. Segóia reinou absoluto…

Mas a verdade, latente em cada cidadão indignado com tantos e tantos desmandos, aos poucos foi se revelando. Houve no Vale quem brandisse o seu mosquete, ferindo à tinta a empulhação daquele reinado, revelando em negras letras as nódoas indeléveis do déspota de plantão. E tanto os cordéis levados de mão em mão, quanto as longas batalhas junto aos doutores da lei lançaram em todo o Vale as sementes da revelação. O Rei estava prestes a ficar nu.

Os habitantes do Vale já deitavam olhos nas réstias de luz que se lançavam sobre as trevas da desinformação e a cada dia buscavam mais e mais saber o que se passava por aquelas paragens. E as questões se repetiam, diante da fácil constatação de que o decantado progresso não se estendia para além do muros do Castelo de Segóia. E todos viam que a miséria era maior, pois mais numerosos os miseráveis; que a cultura local desaparecera na propaganda oficial e no descaso; que a economia do Vale quedava afundada na mais profunda estagnação; enfim, que a prosperidade de Segóia não podia ser  compartilhada pelo povo.

Desnudo pela inocente visão daqueles que tanto enganou, Segóia caiu do trono sob ruidoso apupo, em dia de fina chuva e duradoura, prenúncio de que, arrancada do solo a erva daninha, as sementes plantadas com esperança um dia romperão á luz e frutificarão, trazendo ao povo do Vale o ânimo de caminhar em busca do seu destino.

Caco

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