A TERCEIRA DENTIÇÃO

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Que temos duas dentições, todo mundo sabe. A primeira é quando o neném tá novinho e começa a morder um montão de coisas – coçando a gengiva. E a mãe, toda babosa, diz: “Meu filho tá nascendo dentinho! Que lindo”! Lá pelos seis anos, os dentinhos caem e nascem outros – a segunda dentição. Aos 21 anos, nascem os sisos, que os dentistas teimam em tirar. Minha filha, quando estudava odonto na UFJF, distraiu, aliás, extraiu muito dente de siso de amiguinhas daqui de Viçosa. É claro que depois da extração, vinha a distração, iam bater pernas no calçadão! Rimou!
E a terceira dentição? Esta não tem idade certa. Pode chegar mais cedo ou mais tarde. A minha chegou lá pelos 40 e pedrada, quando pus algumas pontes fixas e móveis. Mas as pontes caíram, pois seus pilares bambearam ou ruíram com o tempo. Que é implacável! E agora, José! José, não, Tarcísio! Temos que fazer implante. Fazer o quê? Quem sou eu pra teimar com um dentista tipo guarda-roupa dúplex.
E marcamos a primeira fase de pôr pinos. Como sempre, o dentista diz que é simplérrimo, que não vai doer. Mas quando vi as ferramentas – alicate de pressão, broca, comum a todos os dentistas, martelo, serrote, chave de fenda – me assustei. Tô lascado, pensei! Já ia me esquecendo, o dentista me deu um ansiolítico para relaxar. Que eu tomei a contragosto.
Já na cadeira, eu todo paramentado, o dentista iniciou a furação do osso do maxilar superior. Foi fondo, foi fondo até que a broca cismou de não mais furar. Osso muito duro! Então o dentista enfiou um dos pinos a poder de martelo. Lembrando Adoniran Barbosa, “cada tauba que caía, doía no coração”; no meu caso, cada martelada do dentista – toim! toim! toim! – doía lá no cérebro. Reverberava fica melhor. E olha que meu cérebro num está mais grande coisa. Aliás, nunca esteve.
Bem, o dentista e as auxiliares, simpaticíssimos, sempre sorridentes, pois martelada no maxilar dos outros é refresco, traziam aquele astral altíssimo! No fim da sessão, meio que de tortura, me deram um copo de suco de uva geladinho! Delícia!
Quando dispensado pra ir embora, depois de o dentista ter posto um esparadrapo no meu queixo para evitar inchar, desci da cadeira. Aí a coisa não ficou boa. O ansiolítico começou a fazer efeito, e eu fiquei com medo de desabar. Então o dentista, muito solícito, me levou de carro até meu cafofo.
Essa foi a primeira etapa do implante, haverá mais três. Ufa! Mas o dentista me garantiu que meu sorriso, após os implantes, voltará a ser avassalador, arrasador. E eu poderei passear no calçadão, aos sábados, com um sorriso panorâmico, meus ocrinhos escuros tipo John Lennon, que meu amigo Eustáquio, do Hospital dos Óculos, fez pra mim.
Quem viver, verá! Inclusive eu.

jtbarbosa500@yahoo.com.br

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