CAIO MARTINS, RETRATO DE UM BRASIL DE HOJE

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XXX – Parte

OS ESTÁGIOS I

Cel. Almeida, presidente do Conselho Diretor das Escolas Caio Martins tinha uma metodologia e cuidado muito especiais na formação da Bandeira do Urucuia. Não se tratava de uma aventura, ainda que o parecesse, considerando os recursos materiais e humanos que possuía a Escola na preparação dos futuros bandeirantes.

No transcurso do Curso Normal Regional o Coronel, ainda no primeiro ano, deu início à motivação dos alunos para a grande empresa, foi quando ouviram, pela vez primeira, o nome Urucuia. E nisso o Coronel era excelente professor. A cada domingo, depois da Missa, pela manhã, realizava encontros no bosque ou no salão da Rádio para falar sobre o Urucuia, introduzindo-se elementos como chamariz – veredas tropicais e morenas dos olhos verdes.

Em 1957, com a formatura da primeira turma do curso, e já definidos os bandeirantes do Urucuia, vieram os estágios que atendiam às necessidades de exercícios de funções, de cada um, no Núcleo Colonial do Urucuia. Lembro, de maneira especial, que três recém formandos foram enviados para Palmeira dos Índios onde era desenvolvido um projeto sócio-educacional do governo do estado (Arnon de Melo, que visitara a Escola de Esmeraldas para conhecer o processo de trabalho ali desenvolvido). Joanas e Pedro Buchene – parece-me – faziam parte da equipe. Eu, primeiramente, fui enviado para São Paulo, estagiar na fábrica da Ford, no bairro Ipiranga. Que aventura. Eu tinha apenas 17 anos. De documentação apenas a certidão de nascimento. Estava na Escola (Santa Tereza), quando  num certo domingo embarcaram-me na Opel para Belo Horizonte – de bagagem apenas uma pequena mala de fibra, muito comum na época para os menos remediados. Nem poderia ser maior, pois pouquíssima roupa teria para acondicionar nela. Primeira providência: ir à casa do tesoureiro das Escolas para liberar a verba para viagem e estadia em São Paulo. Segundo: ir à Mesbla para  pegar o ofício de encaminhamento ao estádio na Ford (cortesia especial do gerente). Terceiro: comprar a passagem aérea (Aerovias Brasil, na época). Problema: eu não tinha idade para viajar sem acompanhante. Quarto: ir ao juizado de menores para obter a autorização para embarcar sem acompanhante. Tudo pronto, com a passagem na mão e o dinheiro (em espécie) para viajar, levaram-me ao aeroporto da Pampulha para o embarque que se daria às 18h, e estava quase no horário. Lá fui deixado sozinho – eu e Deus. Houve um grande atraso e o avião da ponte aérea só chegou às 22h. Com a “cara e a coragem”, tomei o Douglas (DC-3). Minha primeira viagem de avião, sozinho, sem lenço e documento, rumo a São Paulo que só conhecia pelo nome. Cheguei à terra da garoa por volta das meia noite. Assustei-me com o tamanho do aeroporto (Congonhas). Com minha malinha de fibra na mão tomei um táxi sem saber para aonde ir. Por sugestão do motorista (certamente coisa combinada), fui levada a uma pensão no Vale do Anhangabaú. Quarto comum. Amedrontado, com a presença de outra pessoa (desconhecida), coloquei o dinheiro das despesas em uma meia e a amarei dentro do calção e, dormi (!) com a mão a apertando firmemente. No outro dia tomei o subúrbio (hoje metrô) para o Ipiranga e me apresentei na Ford. Lá me encontrei com os demais estagiários, entre eles alguns mineiros e outros do interior de São Paulo, que me convidaram para me hospedar com eles no Hotel Santos Dumont, inaugurado por ocasião do quarto centenário de São Paulo, que se localizava na frente da estação da Luz, onde se dava o embarque para o Ipiranga. Um quarto só para mim, no 14º andar. Na portaria acertei a minha estadia, até o final e, mediante recibo, depositei o dinheiro suficiente para o regresso a Belo Horizonte, ficando apenas com o suficiente para manutenção imediata.

João Naves de Melo

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