DESTRUIÇÃO

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Auguste de Saint-Hilaire, viajando pelo Brasil em 1819 e retratando suas observações no livro Viagem às nascentes do Rio São Francisco, anteviu, com certa preocupação, o que enfrentamos nos dias atuais em relação ao meio ambiente, à gradativa destruição de recursos naturais. Ele observou que índios e escravos, para desenvolverem plantios de lavouras, tombaram e queimaram matas, dizendo que não teriam outra alternativa. Concluiu que eles não poderiam ser culpados, mas foi categórico em dizer que, “Todavia, podemos culpar os seus descendentes, e com razão, por continuarem a queimar as florestas quando há agora à sua disposição tanta terra limpa e pronta para o cultivo; por privarem sem necessidade as gerações futuras dos grandes recursos que oferecem as matas; por correrem o risco de despojar as montanhas da necessária terra vegetal e tornar seus cursos de água menos abundantes; finalmente, por retardarem o progresso de sua própria civilização disseminando o deserto à sua passagem, à medida que buscam novas matas para queimar”.
Sabemos que o processo de desmatamento não segue, rigorosamente, o método adotado naquela época. Contudo, é perverso do mesmo modo quanto à conservação dos recursos naturais – matas e rios. Não é preciso ir muito longe para constatar fatos que nos preocupam e que têm relação ao que ocorreu com nossas matas e cerrados. O município de São Francisco, não muitos anos atrás, era coberto de abundantes matas e um riquíssimo cerrado. Assistimos, na década de 60, a extração vegetal em larga escala – carretas e mais carretas deixavam o município transportando pau-ferro, aroeira, peroba-rosa e cedro. Nos dias atuais, é difícil encontrar capões de pau-ferro, cedro, peroba-rosa e até mesmo aroeira. E o que dizer do cerrado? Uma devastação total para servir às usinas siderúrgicas. O resultado, com o passar dos anos, foi sendo registrado de forma desesperadora para quem vive e depende do campo – como disse Saint-Hilaire, no começo, os “cursos de água menos abundantes”, depois, muitos se tornaram intermitentes e tantos outros, incluindo centenas de veredas, morreram, só têm sinal de vida quando invadidos pela enxurrada. Na caminhada, lá vão as lagoas: Luzia, Grande, Mocós, Renascença, Bom Jardim. Onde se viu abrir valas no leito de lagoas para se obter um pouco de água para dessedentação de animais? Pois isso está acontecendo.
A política da devastação motivada pela necessidade de alimentar o poder econômico, sempre premente, é inconsequente quanto aos resultados deletérios, mesmo por que seus agentes estão sempre muito distantes, apenas colhendo os lucros. Quem fica, paga. E paga desamparado, porque não encontra uma contrapartida – por parte dos empresários e dos governantes que não adotam uma política séria, comprometida e respeitável para assegurar o futuro desses recursos que perecem a olhos nus.
Imaginar que em 1819 em viajante francês já denuncia o começo da destruição de nossos recursos naturais e, de lá até hoje, o que se sabe é que a devastação é permanente – permanente e elevadamente perigosa como a mineração da Vale. Que São Francisco de Assis rogue por nós ao Criador, para segurar a barragem de Paracatu.

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