HISTÓRIAS DE CEMITÉRIO*

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JNM

                O era costume de coveiro dormir no próprio cemitério, aqui em São Francisco. É claro que, em razão disso, muita lenda foi criada, mas existem fatos verdadeiros. É o caso da história – verídica – que me contou o Adélio Cardoso, ocorrido quando São Francisco era cidade pequena, de não passar do Grupo Escolar Coelho Neto. O personagem foi o coveiro Joaquim Peroba. Ele morava num ranchinho dentro do cemitério, sem mulher, só ele e as almas sossegadas. Numa feita, sabendo de um pagode na rua da Mangueira, para lá se arrastou na esperança de “ajeitá uma muié pra se esquentá na  noite”. Deu certo. A mulher, depois das danças aceitou ir para a casa dele, e foram caminhando, subindo a rua poeirenta que dava saída para Montes Claros. Perto do curral de Zelim ele baldeou para a esquerda indo rumo ao portão do cemitério. Chegando mais perto a mulher estancou perguntando para aonde estavam indo e, quando ele respondeu que era para casa dele, ela, espantada soltou um berro e disparou numa desenfreada carreira rua abaixo, com Joaquim Peroba, atrás gritando para ela esperar. Correu, correu e correu até que as  pernas dela fraquearam e ela caiu desmaiada. Apavorado, Joaquim voltou ao cemitério, tomou o carinho-de-mão e, com muito cuidado, a agasalhou nele, voltando para o cemitério. Quase esbarrando no portão a mulher despertou-se e arregalou os olhos, novamente espantada. Joaquim, depressa, atalhou, buscando salvar a situação:

– Oxente, dona, ieu num é difunto não!

Pouco adiantou, a mulher pôs-se de pé, num pulo e, gritando como louca, sumiu na ponta da rua, no rumo do rio. Joaquim, teve mais uma noite solitária e, o que é pior,  nunca mais  viu a possível companheira, a que aceitou passar a noite com ele, esquentando as suas costelas.

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