LUAR NA AVENIDA MONTES CLAROS

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O passado de São Francisco está ali – avenida Montes Claros. Avenida, agora, antes rua, ruela dos lampiões por ser das primeiras da pequena cidade, que nascia da vila de São José das Pedras dos Angicos. Os antigos casarões, de romances e embates; de salas de aula ou de música – rua ou avenida Montes Claros. Dos moradores primeiros Oscar Caetano Gomes, quando explodiu o Barulho, depois Braz e Maria Augusta; Sinval Nunes e Maria Eunícia; Abner e Branca, Ieié e Manoela, Leovegildo e Deodetina, Chico Lacerda e Sinharinha, Francisco Mendonça e Adalgiza, Flávio e Hilda Pinto, Altino, Izaias, Lídia Albernaz e Minduca… Mais recentes Tomi e Gercina, Aluízio Cunha, dr. Raimundo, Ildelbrando, Cleudna, dra. Meire, Mazim e Carmem.
Certa noite eu e meu amigo Dirceu Lelis fomos atraídos pela lua cheia que se alteava na ponta da avenida, caminho de Montes Claros. Que espetáculo maravilhoso, divino, a lua imensa, primeiro dourada como vestida de véus dos raios do sol e depois branca, tão branca como prata reluzente, alteando, alteando em deslizar miúdos com preguiça de ganhar o alto do céu.
Ali parado por instantes vi a sua luz tíbia, disfarçada e suave descendo sobre a avenida. Cobriu, primeiro, a copa das árvores, logo banhadas de prata e, pelas frestas dos galhos abrindo focos no chão, como pirilampos piscando. As casas antigas, tão cheias de história, foram ganhando vida tão própria como delas ser, no tempo: sem fulgor, sem exagero de brilho, como do sol, mas presente como um sonho com tanta delicadeza, na luz frouxa, morna, envolvente de nostalgia. A cor suave que caía em cada parede e porta, em esbate de mansidão, mostrava algo tão especial: o passado guardado se abrindo com tanta paixão ao tempo de hoje, mas sem se misturar. A luz tíbia talvez fosse o disfarce do tempo ido que ainda persiste na avenida ou rua Montes Claros.
A lua alteada, mas clara. Seus raios desciam como prata sobre a avenida rua Montes Claros e o presente foi chegando aos poucos – os tempos se misturaram.
As paredes dos velhos casarões banhados por luz pálida ganharam uma beleza especial – parecia de tristeza, mas na verdade mesmo eram de paz, ali repousando, repousando como nascer para a vida. Renascer? É isso. As duas avenidas-ruas eram uma só no tempo. A vida de nossa cidade, de nossa gente.
Registrei o cenário com o olhar, mas Dirceu o registrou pelas lentes de uma máquina fotográfica para que perene se fizesse aquele momento de encontro.

JNM

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