MEU TEMPO

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O isolamento causado pela Covid 19 tem, pelo menos, um lado positivo: podemos nos entregar a afazeres ou hobbys que há muito não eram cultivados por falta de tempo. Restrito a um itinerário: casa-escritório, escritório-casa; procurei, para não cair no mortal tédio,  preencher o meu tempo que dobrou e redobrou na quarentena (que já vai além de 4 meses). Na TV, passei momentos, divididos com  Vilma nos programas religiosos da Canção Nova e Rede Vida; e filmes na Netflix. De quebra, as novelas de anteontem. O noticiário cansa. Não fala outra coisa senão do coronavírus, do desemprego, da quarentena e de falar mal do presidente. Então voltei a um tempo velho, tão velho que caía em desuso diante de outras ofertas: a leitura. Puxa! O que eu estava inconscientemente perdendo. Até então eu estava lendo um livro por mês – o que é muito em relação a muitas pessoas que não leem um livro sequer por ano. Metodicamente dividi meu tempo. Um para escrever: concluindo a revisão dos livros  Crônica da História de São Francisco; Caio Martins, a História que não foi contada; Memórias e Crônicas. Adianto bastante o expediente. Depois, dediquei-me à leitura e pesquisas. Passei pela Grécia e Roma no florescer do mundo ocidental; reencontrei Machiavel e Voltaire com suas vermes arrasadoras; os contos escolhidos de Aldous Huxley, que se encontrava selado na estante – nele li um verso emblemático de  Andrew Marvell (To His Coy Mistress)  “Mas às minhas costas sempre posso ouvir/ A carruagem alada do tempo aproximando-se depressa”. Percebi, então, que não poderia mais perder tempo – ler era preciso. Incrível, li o fantástico livro que meu filo Ricardo me ofertou no ano de 1985 cuja capa já sinalizava desgaste – A cidade antiga, de Fustel de Coulanges, uma obra indispensável para se conhecer como  foi formada a sociedade ocidental. Passei pela literatura espírita – Jesus e a Cidadania do Espírito, de Paiva Netto e No limiar do infinito, uma obra maravilhosa de Divaldo P. Franco; deleitei-me com a poesia de Cora Coralina  – Vintém de cobre – e de um fôlego li o livro que me enviou Domingos Sales Abreu, levando-me de volta ao Urucuia com todo seu encanto e mistérios: Às margens da incerteza. Sim, não me descurei de leituras da bíblia, o caminho do cristão. Da minha querida São Francisco, da qual tristemente me encontro quase totalmente privado, apenas revejo um pequeno trecho da minha avenida, em caminhada noturna com minha filha Beatriz e minha neta Júlia levando a cadela Serena. Não vejo meus amigos e as pessoas que passam por mim não as reconheço, pois estão com parte do rosto coberto.

JNM

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