O BRASIL e o brasil

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É simples, porém dramático para não dizer vergonhoso: a dengue está ganhando a batalha contra as ações dos hospitais. UPAs abarrotadas de doentes, muitos estendidos no chão; horas a fio para ser atendidos. Médicos e enfermeiros sentem-se como se estivessem em campo de batalha – chegando padiolas e mais padiolas com feridos e mal tendo como atendê-los. A morte sobrevém; pais perdem filhos; filhos perdem pais. Um mosquitinho de nada derruba o povo – infelizmente oriundo dos bolsões mais pobres, regiões mais distantes onde não há saneamento básico, onde as prefeituras nem conseguem recolher lixo na rua, quanto mais limpar lotes baldios. É uma sucessão de desenganos, de erros, de incompetência, mas, sobretudo de falta de recursos. São Francisco, pelo que temos, parou no tempo. Ou melhor, engatou a marcha a ré, com uma administração incompetente, distante e alheia. À falta de recursos – pelo que se diz – para tocar a cidade, deixa tudo para lá com uma bem arrumada desculpa – aceita por autoridades que deveriam exigir providências – o decreto de calamidade financeira. Assim é fácil. Não é preciso atender aos reclames da população, atendê-la no mínimo quanto ao bem comum. Basta um decreto e fica por isso mesmo.
Infelizmente o caos na saúde pública instala-se nos bolsões mais pobres que, no país, são de maior proporção. Morrem homens, mulheres e crianças por falta de atenção e recursos na rede pública de saúde. Morrem tantos e nada acontece, torna-se natural. É o grande sintoma: aceitar tudo com normalidade, até mesmo quando, como cordeiro, é levado ao abatedouro.
De fato, faltam recursos para as áreas da saúde, educação, segurança e que tais – isso tem levado os governos federal e estadual a restringir, de maneira radical, os gastos públicos para tentar consertar uma herança maldita de desgovernos que infelicitaram a nação e, em especial, o nosso Estado.
Agora, meio a isso, a imprensa noticia um escândalo sem precedente: os gastos do Superior Tribunal Federal, a mais alta corte da justiça no país, apenas com regalos alimentícios cuja licitação aponta o valor de R$ 1,134 milhão. O cardápio anunciado é um escândalo e totalmente distante dos olhos – nem se fala do paladar de milhões de brasileiros – de tão refinado. Vejam no quadro abaixo.
O subprocurador-geral do Ministério Público junto ao TCU, Lucas Rocha Furtado, representou contra o pregão dizendo uma verdade irrefutável: “É de se reconhecer que essa repercussão não causa surpresa: os requintados itens que compõem as tais ‘refeições institucionais’, previstos no Pregão Eletrônico 27/2019, contrastam com a escassez e a simplicidade dos gêneros alimentícios acessíveis – ou nem isso – à grande parte da população brasileira que ainda sofre com a grave crise econômica que se abateu sobre o país há alguns anos”.
Só falta vir, da Alta Corte, um deboche parodiando a frase que foi atribuída à Maria Antonieta, dirigindo-se à massa pobre do país que não tinha pão para comer: “Qu’ils mangent de la brioche” – sem ostras que comam brioches.

O MENU PARA SERVIR À CORTE

O menu exigido pela licitação dos ministros dos STF inclui desde a oferta de café da manhã, passando pelo “brunch”, almoço, jantar e coquetel. Na lista, estão produtos para pratos como bobó de camarão, camarão à baiana e “medalhões de lagosta”. As lagostas, destaca-se, devem ser servidas “com molho de manteiga queimada”. A corte exige ainda que sejam colocados à mesa pratos como bacalhau à Gomes de Sá, frigideira de siri, moqueca (capixaba e baiana) e arroz de pato. O cardápio ainda traz vitela assada, codornas assadas, carré de cordeiro, medalhões de filé e “tournedos de filé”.
Os vinhos exigiram um capítulo à parte no edital. Se for tinto, tem de ser tannat ou assemblage, contendo esse tipo de uva, de safra igual ou posterior a 2010 e que “tenha ganhado pelo menos 4 (quatro) premiações internacionais”. “O vinho, em sua totalidade, deve ter sido envelhecido em barril de carvalho francês, americano ou ambos, de primeiro uso, por período mínimo de 12 (doze) meses.”
Se a uva for tipo Merlot, só serão aceitas as garrafas de safra igual ou posterior a 2011 e que tenha ganho pelo menos quatro premiações internacionais. Nesse caso, o vinho, “em sua totalidade, deve ter sido envelhecido em barril de carvalho, de primeiro uso, por período mínimo de 8 (oito) meses”. Para os vinhos brancos, “uva tipo Chardonnay, de safra igual ou posterior a 2013”, com no mínimo quatro premiações internacionais.

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