O EMBATE ESQUENTA

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VOLTAIRE LIMÃO

Aconteceu um grande evento no reino. Em portentoso pavilhão, muita gente reunida, indo e vindo pelos espaços e corredores como formigas, se desvencilhando. Na área externa formavam-se pequenos e alaridos blocos. O Instigador foi lá conferir como ia o ânimo de repartir conversas, conjecturas e o fazer prognósticos sobre as coisas do reino. Um burburinho em que todos conversam ao mesmo tempo e, ainda assim, se entendendo muito bem nos cochichos. Eis que, tão de repente, ele se depara com as duas majestosas figuras que, ultimamente têm despertado seu interesse. Ele as acompanha para aprender a suas treitas e medir o grau de bajulação das entourages de cada um: Fanfarrão e Ursão.
Eis que o Fanfarrão deixa o salão, como um pavão colorido, garboso, passos lentos com precisão ensaiada. Preciso ser vagaroso para não se desgarrar dos vassalos – preciso era contentar a todos. A primeira leva o abraça, agarra, ri, quer sentir seu olhar, degustar suas palavras – ainda que bordadas de pura baboseira. Ah! Nisso ele é bom demais. Sabe cativar, sabe se colocar em destaque para ser adorado, bajulado. Outros chegam e, se espremendo, dão jeito de afastar os primeiros para ter a sua vez. E assim, passam pela área externa em lenta caminhada. Fanfarrão revive seus dias de glória. Sente-se o velho rei, sempre adorado, uma lenda, apesar do tanto que tenha espatifado o reino.
De repente, eis o que vê o Instigador: chega, sutil, Ursão. Passa pelo corredor esquivando-se de um e de outro sem ser incomodado, sequer por um oi. Penetrou como uma sombra no salão. Foi à mesa principal, onde se postava o atrativo daquele evento. Mirou de soslaio e deu meia volta. Saiu como entrou, sem ser incomodado, ou notado. O Instigador refletiu sobre os momentos de cada um tentando projetar situações futuras, pois o Fanfarrão e o Ursão só tinham um desejo e objetivo: sentar-se no trono e esfregar as mãos nos espaldares lustrosos pelos anos de uso. Trono que Fanfarrão já alisou com o farto traseiro de rei e que o Ursão deseja nele esparramar seu não menor traseiro – coisa de poderosos, pois rei magro não desperta confiança, não tem charme, não mostra opulência. O Ursão, por azar, chegou ao evento só, não arrastou seus fiéis sequazes adoradores e bajuladores, a turma do amém-amém. O Instigador pensou, vendo aquela cena deplorável: o reino está a perigo. O Fanfarrão já teve seu tempo de glória, mas teve também o tempo de desfile de roupa brilhante exaltado pela plebe, que não percebia que ele já se encontrava nu, fato só apontado por uma criança (que poderia ser o futuro do reino ao perceber o embuste, o embuste que era o rei). Infelizmente o menino acabou só e a plebe ululante voltou carregando o Fanfarrão. E o Ursão? Esse vai rompendo, abrindo picadas, esfacelando quem passar à sua frente atrapalhando sua caminhada. Mas, quase sempre está só, pois ele é só. Querendo ser rei, pode acabar como Eduardo III: “Por causa de um prego, perdeu-se uma ferradura; por causa de uma ferradura, perdeu-se um cavalo; por causa de um cavalo, perdeu-se uma batalha; por causa de uma batalha, perdeu-se uma guerra; por causa de uma guerra, perdeu-se um reino… Por causa de um único prego, perdeu-se um reino inteiro!”. O Ursão pensa longe, quer muito sem passar pelo pouco – é ambicioso.

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