O URSÃO

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Voltaire Limão

O Tosco fanfarrão deixou seu séquito bajulador um tanto triste, dando uma sumida no período natalino e passagem de ano. Tanta badalação acabou o incomodando, mesmo que dela precisando e até incentivando, mas ninguém é de ferro para suportar, o tempo todo, a babação em cima. Sumiu. Deve voltar em fevereiro. Talvez. Pois é tempo de Carnaval, de festa, de máscara, de enganação e coisa e tal. Nada melhor para atrair as atenções e o incenso sobre si, o vaidoso fanfarrão. É só esperar, que ele aparece como salvador da Pátria de plantão, pois que, em verdade, o  tempo seria propício.

O Instigador também ficou sem espaço para se divertir, tirando sarro dos eternos aduladores do Tosco. Não gostou nada da situação.

Eis que tão de inopino lhe aparece uma figura inusitada. Coisa de última hora, como um fantasma que sai do nada e se infiltra nos espaços. Manso como cordeiro, fala quase imperceptível, olhar sempre para baixo sem nunca encarar os olhos do interlocutor. Toma jeito messiânico no falar, esperto no verbo sussurado, sempre sem se exaltar, mas decisivo. O Instigador, de folga do Tosco, bateu o olho nele – olho cirúrgico, diga-se – e descobriu logo a manha: esse cara descansado, de caminhar lento, como urso saído da hibernação, está ensaiando tomar o lugar do Tosco. Ah! Isso está. Aqui na terra encantada, Terra do Nunca, porque quase tudo parece fantasia e pode acontecer, qualquer diferente que sabe das negaças, ocupa lugar de destaque, infiltra-se. Assim, quase nas sombras, esse Urso saindo do sono, do nada, vai ocupando espaço, ganhando influência incomum. Lembra Ravengar da novela Que Rei Sou Eu lá dos anos 80. O danado não era o rei, mas mandava mais que sua majestade, dominava, e sua influência era régia e, minando aqui e acolá, no palácio e fora dele, nos mais distantes condados. E aqui está o Ursão no seu passo manso, sem exaltação, mas provocando arrasos – sem rugir –, vai se impondo e, de repente, o que vê o Instigador: ele já tem um pequeno séquito de bajuladores. E pensou: danados, são mesmo como a garça vaqueira ou rêmoras. Nada produzem, nada fazem, mas encostam nas vacas e tubarões para viver dos carrapatos e das sobras. E por estarem perto do Ursão, posam de grandeza, saem das sombras.

O Instigador matutou que, de agora em diante, além do Tosco, teria que se preocupar, também, com o Ursão, nova ameaça de sua terra – terra que, não saía do lugar, para frente, mas que estava ameaçada de marchar para trás.

Assuntou um pouco e descobriu que o Ursão já tem aprontado e mostrado a ponta de suas afiadas garras – e, pesou: vai pegar muita gente inocente e até mesmo a sua majestade de plantão.

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