Os brasileiros no mundial de queijos de tours

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Muitos produtores da região da Serra da Canastra, no sul de Minas Gerais, participaram com outros brasileiros do Mundial de Queijo de Tours, na França, competição realizada a cada dois anos que reúne produtores de vários países. Mas os queijeiros passaram por fortes emoções no aeroporto de Campinas, no interior de São Paulo.
Maria Lucilha de Faria, uma das produtoras de queijo de Minas Gerais, estava apreensiva quando chegou ao aeroporto. Afinal, levava nas malas os queijos que não poderiam estar ali e tinha receio que eles pudessem ser apreendidos. Embalou o produto com várias camadas de plástico para ocultar o odor. No entanto, foi abordada pelo policial federal, já com receio de ter os queijos jogados fora. Depois de abrir as malas e inspecionar o produto ele deixou que ela e outros queijeiros transportassem a carga preciosa.
Tudo porque na França como aqui no Brasil, há lei que exige a pasteurização do leite por motivos sanitários, e o queijo artesanal é feito com leite cru para preservar as bactérias e manter o sabor característico de cada região. Chegando à França também tiveram que justificar a carga “fora da lei” mostrando a carta-convite da organização do concurso.
Valeu a insistência e os brasileiros, ao todo, levaram 143 queijos, ganharam 59 medalhas (entre elas 4 superouros – a premiação máxima –, além de 8 ouros, 19 pratas e 28 bronzes) na competição, sendo 50 só de Minas Gerais. Foram premiados também produtores de Goiás, São Paulo, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pará. Foi um desempenho bem superior à participação do Brasil na edição de 2017 do concurso, quando foram conquistadas 12 medalhas por produtores de Minas Gerais.
O resultado superou qualquer expectativa, diz a mestre queijeira Débora Pereira, diretora da SerTãoBras, organização sem fins lucrativos dedicada a apoiar produtores de queijo de leite cru e que ajudou a promover a participação dos brasileiros na competição francesa.
O queijo industrializado é feito em grande escala, com leite de diversos produtores submetido à pasteurização, ou seja, é aquecido e depois resfriado para eliminar bactérias. Os produtores artesanais não realizam este processo, mas dizem que outros métodos, como a maturação dos queijos, o controle de qualidade da água, a qualidade do leite usado na fabricação e exames periódicos de seus rebanhos garantem a segurança sanitária da produção.
Ainda assim, eles enfrentam restrições para comercializar seu produto fora de suas regiões e não conseguem exportá-lo. O mesmo não ocorre com queijos feitos da mesma forma em outros países, como na França, que podem ser importados e chegam às prateleiras dos supermercados e empórios brasileiros. Portanto, importamos queijos de leite cru de outros países e não podemos vender os nossos. Desde 1990, a Associação de Produtores de Queijo Canastra (Aprocan) tenta resolver a questão de comercialização e até hoje a lei não foi regulamentada.
Até o ano passado uma lei de 1950 estabelecia que produtos de origem animal deveriam ter um selo de inspeção federal para serem comercializados fora dos estados onde foram produzidos. Isso mudou em 2018, com a lei 13.680, que permitiu que produtos artesanais fossem vendidos no país, desde que contassem com uma certificação estadual ou, futuramente, obtivessem o chamado “selo arte”, que seria conferido por órgãos de saúde pública estaduais para atestar que o produto artesanal segue características e métodos tradicionais e boas práticas de fabricação e de segurança sanitária. Mas, na prática, essa legislação impede a circulação nacional dos queijos de leite cru, porque, para ter o certificado nacional, é preciso usar leite pasteurizado.
A nova legislação ainda não foi regulamentada. Sem isso, o sistema que regula o queijo de leite cru e o pasteurizado industrialmente ainda são muito parecidos. Todos entendem que não podem ser aplicadas as regras de produtos industrializados para os artesanais. A briga não é para liberar geral, mas respeitar as regras que protejam a saúde do consumidor, com o reconhecimento dos procedimentos sanitários específicos para o queijo artesanal. Dos 830 produtores cadastrados na Aprocan, apenas seis conseguiram vencer a burocracia e obter a certificação estadual atualmente.
“Muita gente na França demonstrou interesse em importar nossos queijos, mas a gente tinha que explicar que eles estavam lá apenas para o concurso, porque as nossas leis não permitem que a gente os exporte”, afirma Braga, presidente da Aprocan. Com a restrição do comércio, perde o país e o produtor. Sabemos que é preciso respeitar as condições sanitárias, colocar critérios e fiscalização, proibir simplesmente para evitar “problemas” é fácil demais. Sabemos também que a despeito das leis, continuaremos a consumir queijo de leite cru, carne de sol, licor, doce, cachaça e tantos outros produtos artesanais, tão caros na nossa memória gastronômica afetiva que nenhuma lei poderá barrar.

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