PASSEIO NA ORLA DO SÃO FRANCISCO

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Manhãzinha. O sol aponta preguiçosamente na linha do horizonte rubro. Malemolente ele vai desprendendo coloridos, tênues e brandos raios sobre a terra. Passeando pela orla do rio São Francisco, na hora matinal, o que encontro? Na lagoa da Luzia o cenário é muito atraente, uma pintura. Na linha de fundo imensa fileira de pajeús com as frondes cobertas de buquês de flores vermelhas; na margem da lagoa uma faixa verde de alagadiço que enfrenta viçoso a seca e de um pulo, chega-se, a um tapete de bengo fenado com vacas distraídas no repasto matinal; realçam-se pintas brancas saltitantes de garças tentando alguns peixes. Deixando a lagoa a jusante passa-se por um bosque desprendido do viço por falta de chuva, mas que é belo no seu impressionante tom marrom. Descendo pela orla percebe-se o efeito da seca: a maioria das árvores tem os galhos secos espetados ao céu. Nada de verde. Tudo seco, tão seco como paisagem morta. No estender do caminhar, sutis mudanças, preciso atenção para perceber. No cais, no alto do rochedo de granito preto, desponta um solitário pajeú, ali de atalaia vigiando as águas do rio e, tem na copa uma coroa de flores vermelhas, verdes dias antes. O andar vai pouco além, no segundo trecho da orla e, misturado à brisa fresca da manhã, a sensibilidade toca um olor agradável, vem na brisa soprada das águas do rio e, então, dá-se com o cenário de um cromo: a caraibinha branca. É um espetáculo digno do éden. Um perfume doce toma conta do ar, uma canção se percebe no enxamear de dezenas de abelhas buscando libar o doce néctar das mimosas flores. É uma dádiva da natureza aquelas árvores à beira do sagrado São Francisco – combinação perfeita para alegrar a vida. Em baixo, no chão tórrido, abrem-se, de cipós estendidos com flores de diversos matizes. Quem plantou aquele jardim? Pois é. Ficamos a lamentar tanto a seca sem perceber que, nela há, também, o belo. Aquele cenário tão seco, de aspecto tão árido, tem sua beleza própria, do seu tempo. No mais, ele nos cria uma expectativa: a espera do verde que vem com o estourar da Primavera, com as primeiras gotas d´água que caem do céu. Chega o mês de agosto; então brotam as primeiras miúdas e translúcidas folhas do tamboril dançando ao sabor da brisa e outras árvores logo se revestem da roupagem de denso verde. Aí, na minha contemplação e espera, repito um verso de Luiz Carlos, do soneto Exortação: “que fora o claro se não fora o escuro”. Na vida, tudo tem seu proveito. Depende do nosso estado de espirito.

João Naves de Melo

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