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JORNAL O BARRANQUEIRO  10.7.2004, Nº 46

“NOSSA HISTÓRIA

O AJOUJO

João Botelho Neto

O ajoujo era uma embarcação usada para a travessia do rio São Francisco conduzindo animais de montaria ou tropa de bovinos de alto valor. Na ocasião da romaria da Serra das Araras, transportava todos os animais de montaria dos romeiros durante vários dias na ida e na volta.

Essa embarcação era operada por três homens sendo: um piloto e dois que remavam ou empurravam andando na coxia. Nas margens onde era pouca a profundidade eram usados os varejões que tinham um gancho na ponta que servia para fixá-los no fundo do rio. A outra extremidade era colocada no peito do remeiro que ia andando vagarosamente pela coxia em sentido contrário à marcha do ajoujo que era empurrado com os pés. Quando se alcançava a parte profunda, os homens passavam a trabalhar com dois remos até chegar à margem oposta. Nos últimos tempos, o ajoujo não era mais uma embarcação de viagem. Era usado somente em travessia de rios. Alguns eram construídos pelo poder público que os arrendavam para serem explorados por particulares.

Os últimos que prestaram serviço nos portos de São Francisco eram particulares. Um dos proprietários mais conhecidos foi José Reginaldo que foi substituído por Serafim. Serviram na travessia até a chegada dos barcos a motor. A embarcação tinha um estrado sobre duas canoas grandes de cedro ou tamboril onde se construía o curral. Nas laterais existiam duas coxias por onde transitavam os vareiros para empurrar a embarcação.

O cientista viajante inglês Sir Richard Burton, construiu um ajoujo a que deu o nome de Bringue Elisa, e nele fez a viagem de Sabará à Vargem Redonda em 1867. O navegador assim descreveu a embarcação. “O ajôjo (sic) comum é uma junção de duas ou três canoas sendo que, quando três, a mais comprida deve ficar no centro. As melhores madeiras são o forte e leve tamboril, o vinhático e o cedro brasileiro que tem cerca de uma polegada de espessura; no entanto o que eu viajava era de peroba com cerca de duas polegadas de espessura e conseqüentemente muito pesado, mesmo sem carga afundava quase dois palmos. Às vezes há um leme que se fixa na mais comprida das canoas; na falta deste, o piloto tem que remar de pé ou sentado na popa. De preferência as canoas têm que ser ligadas umas às outras por correias de couro com intervalo de seis e oito polegadas entre elas, e não ligadas por barras de ferro na proa e na popa com sucedia minha balsa pois isso elimina toda a elasticidade. Estacas cilíndricas ou quadradas, presas por correias de couro à murada suportam o soalho ou plataforma, que deve ser bem ajustado lateralmente para impedir a penetração de água, quando a embarcação se inclina. Consta ela de dez tábuas estendidas horizontalmente, projetando-se aos lados, em coxias ou corredores de oito a dez polegadas de largura onde os homens trabalham”.

Assim era a embarcação em que Mr. Burton enfrentou o rio das Velhas a partir de Sabará e entrou no São Francisco pelo qual desceu até Vargem Redonda nas grandes cachoeiras. O ajoujo foi usado em 1879 pela Comissão Hidráulica na histórica viagem de estudos do rio São Francisco em que foi comandada pelo engenheiros americano William Milnor Roberts. Dessa missão fez parte o nosso ilustre patrício Teodoro Sampaio que assim se referiu à embarcação: “…Foi mister seguir um dos engenheiros até Rodelas e Cabrobó para comprar canoas e contratar pessoas para o serviço… Foi mister improvisar uma carpintaria para se fazer os “ajôjos”, espécies de balsas em que deveríamos viajar pelo rio acima”.

Durante a viagem foram usadas velas triangulares presas por um só mastro. A tripulação era composta de gente acostumada ao trabalho nas barcas.

O cientista passa então a examinar os homens e seus hábitos e os descreve:

“Os homens semi-nus que cantam a sua cantiga monótona de barqueiros, e vão e voltam levando as suas varas longas e ferradas, jogando-as firmes, certas, n’água, os peitos apoiados sobre elas, tremendo sobre o impulso dos músculos retesados enquanto debaixo dos seus pés e impelidos por estes a embarcação caminha de encontro à corrente”.

Era um novo Brasil sendo descoberto por um brasileiro e estrangeiros, justamente na região das cachoeiras.

João Botelho Neto é presidente do PRESERVAR-SF.”

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