SÃO FRANCISCO PERDE UM DE SEUS MAIS ILUSTRES FILHOS

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ADEUS, ARISTOMIL

Na manhã do domingo 25 a comunidade são-franciscana foi surpreendida com uma triste notícia: falecimento de Aristomil Gonçalves Mendonça. Foi um choque a  irreparável perda de uma pessoa que transitava em todos os setores do município sempre acolhido com maiores atenções e carinho, resultantes de sua afável personalidade, formação de caráter e espírito de homem público. Uma figura rara.

                Tomi, como carinhosamente era tratado, apensar de se fazer presente em eventos, em passeios pelas ruas da cidade e, impreterivelmente, em todas as reuniões da Maçonaria, cuja Loja em São Francisco foi inspirador e do grupo fundador, mostrava-se, ultimamente, muito abatido, sem jaça, distante do espírito que lhe era tão peculiar – perdera dois irmãos, quase que ao mesmo tempo. Foi um baque, pelos profundos laços familiares que os unia. Depois, veio o golpe maior – o desligamento material de sua companheira de todos os momentos, da mulher com a qual construiu uma grande família, a sua querida esposa Gercina. Tomi praticamente se desmanchou. Ficou triste, pouco falava e não mais sorria. Aos cumprimentos que lhes eram dirigidos muito mal balbuciava uma frase que sempre repetia ao dirigir-se aos amigos: “como foi de viagem”.

Essa frase tem raiz num modo de ser e dele viver – o gosto pelas viagens. Qualquer evento era motivo para ele empreender uma viagem – casamentos, aniversários, festas e até velórios. Era sempre o mais presente de todos. E  assim, já no avançado de seus 90 anos em São Paulo e tomado pelo banzo, ele teve um compromisso pela frente: o casamento de uma moça que considerava uma neta, que se realizaria longe, bem longe – São Paulo. Ponderam-lhe que seria arriscado e muito sacrifício para ele empreender tal jornada, que ela iria além de seu vigor físico. Falou mais alto a força da alma, do querer, do se fazer presente junto aos amigos. Foi a última viagem – faleceu.

Tomi teve o bem viver. Sempre será lembrado como pessoa do bem, que serviu à comunidade e o quanto  era querido. Isso é o que vale. Tal sentimento foi vivenciado no templo da Loja Maçônica, quando o padre Américo oficiou a cerimônia de encomendação do corpo. Foi um momento de profunda meditação, quando o sacerdote interpretou o sentimento de todos os presentes e rogou tanto pela alma de Tomi.

Momento cívico foi vivenciado na Câmara Municipal quando foi prestada homenagem ao Tomi, ex-prefeito municipal de São Francisco e homem público respeitado.

O Cemitério da Saudade recebeu o corpo do grande homem que foi Tomi na manhã do dia 26 com acompanhamento de seus familiares e dezenas de amigos.

Na próxima edição do jornal Veredas será publicada um pouco da história desse grande cidadão.

MENSAGEM DA FILHA ADALGISA BOTELHO DE MENDONÇA

                De repente um susto, um corpo caindo no abismo, lívido, doloroso, meio ao refeitório do hotel.

Quisera o destino que ele morresse entre filhos, netos, genro e nora.

Depois que perdeu sua companheira ele ficou perdido em águas fundas, sentimentos revirados…  Sentado na mesa jogando paciência ele se ocupava, era difícil encarar o lugar vazio na mesa de refeições, a poltrona da sala de televisão, a cadeira da varanda… a casa ficou grande demais. Era doloroso também o passeio ao pôr-do-sol, ao porto da lancha e até mesmo olhar para o lugar dela no banco da igreja.

Durante mais de um ano “foi desejo seu falar pouco para sentir mais” a falta dolorosa da sua esposa Gercina de mais de sessenta anos de convivência. Em cada gesto seu ficava o vazio, pois faltava a presença silenciosa dela.

Foram importantes as caminhadas na praça da igreja, os passeios na fazenda, os encontros com amigos, as reuniões da maçonaria, as festas e as conversas com padre Vicente. No entanto, ele havia perdido o brilho do olhar.

Aristomil, na sua invisível presença sentiremos a eternidade na sua alegria, na prontidão em ajudar o próximo, no espírito conciliador e principalmente na sua retidão em agir seguindo os seus valores.

Nós filhos, genros, nora, netos, bisnetos, familiares, irmãos e amigos sabíamos que:

“Tudo em ti era uma ausência que se demorava:

uma despedida pronta a cumprir-se.”

 (Elegia – Cecília Meireles)

Agradecemos a delicadeza de Darliana ao cuidar dele, a maçonaria pela, irmandade, prontidão e respeito, a padre Américo pela disponibilidade, a padre Vicente pela amizade e recordações de 40 anos atrás e a todos, principalmente familiares e amigos de uma vida, pelo carinho que sempre tiveram com ele.

MENSAGEM DA LOJA MAÇÔNICA ACÁCIA SANFRANCISCANA

                Irmãs, Irmãos,

Aqui nos encontramos em um momento nunca antes desejado, mas ainda que por um infortúnio, faz parte do plano do Criador. Estamos para falar sobre o desligamento material do nosso muito amado irmão Aristomil.

Guimarães Rosa, o magistral escritor brasileiro, traduziu momento como este com tamanha simplicidade, revelando, contudo, uma verdade  que vamos encontrar ressonância nas palavras de Cristo.

Disse ele: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. E, na mesma linha, completa: “Os que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós”.

E o que encontramos na palavra de Cristo?

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto.”  – (Jo 12,24). Estas palavras de Jesus, muito mais eloquentes do que um tratado, revelam o segredo da vida.

Não existe alegria de Jesus que não seja fruto de uma dor abraçada. Não há ressurreição sem morte.

Irmãs e  Irmãos, para alcançar o gozo da vida eterna é preciso morrer. A eternidade é o não tempo e nela a morte não existe.

Aqui fica uma percuciente pergunta: quem foi e o que fez nosso irmão Aristomil na vida? Temos a resposta: foi o paradigma de um, dos mais sublimes, ensinamentos do Divino Mestre difundido, depois, por São Paulo: Tomi viveu e pregou o espírito da fraternidade. Teve a vivência das três virtudes ressaltadas pelo apóstolo Paulo – fé, esperança e a caridade, delas a maior.

Tomi foi um homem de fé, vivenciada ao lado de sua querida esposa Gercina, entregues aos preceitos da Igreja e nela sempre presentes. A  esperança não lhe faltou na busca da consecução de seus ideais, sobretudo como homem público cujo currículo é repleto de realizações, desde rapaz quando foi chamado a ingressar, em momento complicado, no serviço do judiciário a quem dedicou uma vida honrada, exemplar; depois como prefeito de um município pobre, atravessando sérias dificuldades e sem recursos. Ele acreditou e, assim, tanto realizou por São Francisco.

No seu trabalho, Tomi transmitia alegria e raios de esperança de que tempos melhores viriam. Na vida social, nem se fale. Poucas pessoas em São Francisco foram tão produtivas, tanto se entregaram às causas sociais e buscando o engrandecimento da comunidade. Não vamos enumerar suas realizações materiais, que foram tantas. Reservamos duas facetas que revelam a preocupação que ele e dona Gercina tinham para com nossa gente. Um caso: foi fundador de uma instituição que é visceralmente voltada para a fraternidade, para a construção de uma sociedade maior, que se fundamenta nos alicerces da família e que tem como olhar mais elevado o Criador do Universo. Falamos da Maçonaria. Ao lado dele, sempre, dona Gercina presidia a Fraternidade Feminina que tanto ajudou a pobreza e realizou eventos sociais promovendo os mais fortes liames de famílias.

Outro caso: ele foi parceiro na instituição do Lar dos Idosos e mais que a ajuda material, dedicou-se ao lar, ao lado de dona Gercina, a sua presença amorável alimentando o espírito dos velhinhos com tanto amor. Não bastassem, doaram uma área de mais de 5 mil metros quadrados para a futura construção do lar e a cobertura do salão que tem servido como capela para celebração da Santa Missa, oração dominical do santo terço, eventos sociais e refeitório.

                A fraternidade universal pela qual desejamos viver, a paz, a unidade que queremos construir ao nosso redor é um vago sonho, uma ilusão, se não estivermos dispostos a percorrer o mesmo caminho traçado pelo Mestre.

Assim devemos fazer também nós. Enamorados deste Deus que se faz nosso próximo, temos um modo para demonstrar-lhe a nossa imensa gratidão pelo seu infinito amor: viver como Ele viveu. E a nossa chance está em nos tornarmos próximos de quem passa ao nosso lado na vida, estando dispostos a nos fazermos um com ele, a abraçar a dor de uma divisão, a partilhar um sofrimento, a resolver um problema, com um amor concreto que sabe servir.

Resumindo: isso não é o retrato da trajetória em vida do que foi Aristomil, nosso amado irmão? Um homem altivo, de coração generoso, que andava pelas ruas da cidade e frequentava todos recintos com a cabeça erguida, sempre bem-vindo e respeitado. Sem dúvida, um grande galardão para um homem público, coisa tão difícil em tempos atuais.

Sabemos que será difícil, ou até mesmo doloroso mergulhados em tanta saudade, não tê-lo no dia a dia, com sua alegria, sua paz, sua sabedoria. Mas imaginando-o em um plano superior, colhendo os frutos daquilo que plantou, com tanta alegria, podemos nos consolar e, a cada dia, bater palmas para ele. E mais, com um só coração, dizer: muito obrigado irmão Tomi pelo tanto que nos doou e ensinou.

Não o perdemos. Ganhamo-lo, agora, mais perto do Grande Arquiteto do Universo, onde você cuidará de novas construções.

Então, Tomi, até logo!

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