TABATA AMARAL, ESPERANÇA NA POLÍTICA E NO ENSINO

0

Adalgisa Botelho de Mendonça

Quem assistiu ao discurso de estreia da deputada Tabata Amaral (PDT-SP), no plenário da Câmara dos Deputados, em fevereiro, não poderia imaginar que menos de dois meses depois ela colocaria contra a parede um ministro septuagenário do Governo Jair Bolsonaro. De fala mansa, linear e sem alterações, a deputada não carrega em seu discurso os trejeitos inflamados de palanque. “A educação não muda se as políticas e os políticos não mudarem”, disse ela, em pouco mais de cinco minutos de apresentação. E foi exatamente essa conduta serena e sem precisar mudar o tom de voz que fez o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, ficar sem resposta durante uma reunião da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.
Tabata Amaral, 25 anos, paulista, criada na Vila Missionária, bairro pobre paulistano, e novata no Congresso, formada em ciências políticas e astrofísica pela Universidade Harvard, graças a bolsas de estudos, já trabalhou como pesquisadora, professora, funcionária de secretarias de Educação. Filha de um cobrador de ônibus e de uma diarista, ela ganhou pelo menos 30 medalhas em concursos de matemática, astronomia, física e robótica.
“Não passei na Unicamp e no ITA, mas passei nas seis melhores faculdades dos EUA com bolsa completa. Porque no vestibular daqui (EUA) eu falei que trabalhava desde os meus sete anos. E isso contou.” A deputada, que se classifica como “progressista”, de “centro-esquerda” e defende cotas sociais e raciais, diz acreditar que a universidade pública é um ambiente elitista, frequentado por ricos e os pobres têm de pagar financiamento porque não têm como preparar adequadamente para passar no vestibular.
Durante as cinco horas que duraram a audiência com Ricardo Vélez Rodriguez, os seis minutos da fala de Tabata em Brasília foram os mais tensos. A deputada questionou o despreparo do ministro e a falta de um projeto concreto para a educação. “Em um trimestre não é possível que o senhor apresente um Power Point com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis?”, perguntou ela. “Eu quero saber: onde eu encontro esses projetos? Não dá para acreditar que essa paralisia vá levar ao sucesso da educação brasileira.”
Após a queda do ministro Ricardo Vélez Rodriguez, ela se disse preocupada com a divulgação da nova equipe do Ministério da Educação (MEC) e com as declarações do novo ministro Abraham Weintraub. “Quero ver se vai prevalecer a visão do Ministério da Economia, com desvinculação de recursos, ou a visão de dar educação de qualidade para todos”, afirmou.
Os principais cargos do MEC passarão a ser ocupados por profissionais com experiência em administração, mas sem qualquer relação com a área de educação. Em entrevista, Weintraub disse ainda que o Brasil já gasta bastante com educação em relação ao PIB.
A deputada lembrou que, apesar de 6% do PIB serem aplicados na área, no País, há cidades que trabalham com cerca de R$ 400 por aluno, por ano. Isso porque o valor é dividido por estudante de cada estado, e o Brasil tem uma quantidade muito maior de alunos do que outras nações que investem a mesma porcentagem do PIB.
A Secretaria de Educação Básica (SEB), considerada uma das mais importantes, ficará com Janio Carlos Endo Macedo. Ele é formado em Direito, com especializações em Administração, e atuou por mais de dez anos em banco, sem experiência na área de políticas educacionais. Também foi secretário executivo do então Ministério do Trabalho.
Quem trabalha com educação e já visitou uma escola pública, especialmente nas periferias, nos lugares mais afastados, sabe que a gente tem um problema gravíssimo de infraestrutura, de falta de professores, de financiamento.
Quando perguntaram sobre o que esperar da nomeação de um economista para o cargo de ministro da Educação ela respondeu:
“Quando vi a nomeação do ministro Abraham Weintraub, fiquei pensando muito sobre o desafio que ele tem pela frente. Ele é um gestor, tem experiência em gestão, mas o desafio que ele tem, de fato, é bem grande. São três meses e meio de uma paralisia completa do MEC, em que as coisas mais básicas, como implementação da Base Nacional Comum Curricular e da reforma do ensino médio, avaliações como o Enem, a discussão sobre a renovação do Fundeb e a formação dos professores foram completamente paralisadas. O primeiro questionamento que faço para quem tem experiência em gestão é: quando vamos receber um calendário com prazos, metas e prioridades? Como o ministério vai fazer para reverter cada uma dessas perdas que já sofremos? Qual visão vai prevalecer no MEC? É a do Ministério da Economia, que já fez cortes muito drásticos na educação e está apresentando uma visão de desvinculação do orçamento público — o que é muito perigoso, especialmente para as políticas públicas educacionais —, ou a de quem se preocupa com uma educação de qualidade para todos? E faço uma ênfase nesse “todos”. O novo ministro está comprometido com a renovação do Fundeb? É o Fundeb que garante o salário do professor, formação continuada, transporte escolar, infraestrutura e material didático. Há conversas de corredores de que o Fundeb não vai ser renovado.”
Se essa jovem deputada federal, paulista, continuar com esse pique, teremos pelo menos uma voz em favor da educação, que ainda não está contaminada pelos vícios dos nossos “antigos” representantes do povo, que na realidade, representam mais os próprios interesses que os do povo. “A educação não irá mudar se a política e os políticos não mudarem”.

Campartilhe.

Comentários desativados.