UM BANDO DE ESTRANHOS

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Na manhã do domingo 19 fui à agência do Bradesco, considerando que, certamente, não haveria movimento de pessoas na praça Centenário. Tempo de Covid, com tantos cuidados, são outros os nossos modos de vida – antes  era um prazer, uma alegria cumprimentar e abraçar os amigos. De fato, a agência não tinha ninguém. É claro que, mesmo em tal situação, senti-me bastante incômodo e apavorado, numa situação insólita, vivendo um momento de desapego. Na saída da agência percebi um grupo de rapazes em altos papos em torno de um banco do jardim. Descontraídos, alegres, abraçando-se, nenhum deles com máscara. Fiquei espantado… mas espanto maior foi o deles quando me viram de máscara. Olharam para mim com modo de gozação. Miraram na minha máscara e parece que ouvi um deles dizer – “Que isso, gente? Esse cara tá vindo de outro planeta?” De fato, em todo o percurso, até o banco, as pessoas que cruzaram meu caminho estavam sem máscara. De repente, então, senti-me deslocado, noutro mundo e totalmente exagerado na precaução contra o coronavírus. Nisso se aproxima, vindo em minha direção, meu amigo Jouber. Fiquei apavorado, pois ele estava sem máscara. Tive uma reação totalmente contrária ao instinto de congraçamento e efusão do cumprimento de mãos ou abraço. Estranha, e resolutamente, fiquei de longe, coloquei logo uma barreira entre nós antecipando o cumprimento. Ele entendeu e riu. Não ficou nisso, ele estocou – “Que isso, sô! Que medo é este. Parece que você está noutro mundo”. Retruquei com veemência: – Estou mesmo. Estou defendendo a mim e a minha família da contaminação! – “Que contaminação, devolveu ele. O coronavírus não chegou a São Francisco e se chegou não medrou, pois a rapaziada está aí de bar em bar tomando todas, dançando forró, levando uma vida normal. Se você não viu, dá um pulo na beira do rio e veja o movimento na praia. A moçada lá se encontra na frente das barraquinhas, tomando sol e bebendo  cervejas. E você aí mascarado. Espera aí, Zorro.”

Fui conferir e até tirei retrato. Era um fato: muitas barracas e tanta gente. Meu Deus! Murcho, preparei para voltar para casa, ao meu retiro, do qual não abro mão, quando por mim passou um doidinho da cidade, peito estufado, como um cavaleiro contra a morte, ostentando uma exuberante máscara.  De longe me cumprimentou, impoluto, cheio de si com sua máscara – “Aí, doutor, vamos nessa!”. Com máscara eu vou, pois não penso apenas em mim, mas também em meus semelhantes, pois ainda não foi dado o sinal verde para dispensá-la e sair do isolamento. De repente, nós que usamos máscaras para nos proteger e à sociedade, acabamos como um bando de estranhos.

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