UMA VIAGEM A SÃO ROMÃO

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Recentemente tive o prazer e alegria de ler dois livros do são-romanense Paulo Gonçalves Pereira – Toda a Ternura de um Homem e Toda a Ternura de um Pai. A respeito do segundo, escrevi alguns comentários porque, em suas linhas, o relatado pelo Paulo levou-me a uma viagem a São Romão da minha juventude. Da carta que enviei ao Paulo, extrai o texto abaixo para publicar no PortalVeredas e em meu blog como, também, uma homenagem à querida São Romão.

Caro Paulo,

Acabei de saborear o seu belo livro Toda a Ternura de um Pai, ao qual pela beleza de um sentimento filial e familiar, acrescento a Ternura de uma Mãe. Uma história fantástica de Zezé e Misu, um exemplo de vida, de amor e desprendimento, coisa um pouco rara no mundo atual.

O livro teve, para mim, além da belíssima história central – seus pais – a oportunidade de reviver meus dias e amizades criadas em São Romão. Numa e outra página, eu me via pelas ruas da bucólica cidade que aprendi amar – o meu primeiro contato com as barrancas do São Francisco, primeiro através da Conceição e, depois, de São Francisco.

Comento, com sua licença, por ter gostado e me identificado, algumas passagens:

Página 33: “Em São Romão, ninguém passa fome”. A descrição da vida naquele tempo é perfeita. No meu livro Do Cerrado às Barrancas do Rio São Francisco (Dos tempos idos & das mudanças) também fiz menção a esse fato. Ao homem que vivia no meio rural nada faltava. Da cidade, no muito, precisava do sal, querosene (quando não produzia o óleo da mamona para alimentar as candeias) e o Veramon. Sua vida, na cidade, pelo êxodo forçado, se transformou num desastre, levando muitos deles até mesmo à perda da dignidade, tendo que viver de auxílios de terceiros, enquanto assistem suas filhas se prostituindo e os filhos nos descaminhos.

As caçadas e a pescaria de seu pai é outra passagem interessante. A vida de mais tempo era mais frugal, simples e feliz. Boas caçadas (quando tomava conhecimento da vida silvestre, aprendendo muito da flora e da fauna) e boas pescarias, quando córregos e rios eram bastantes piscosos. Hoje ficam na lembrança.

Zezinho Cearense: Eu conheci Zezinho Cearense na Conceição. Não sabia da origem de sua família. Gente muito boa e disposta para o trabalho – ele e os meninos – Juarez, Joabes, Chico, Ivone e menina Geraldina, de singular beleza. Foram contratados para construir um “rego” para captação de água da cachoeira do Conceiçãozinho (córrego que vinha dos gerais) para abastecer o Núcleo. Uma obra ousada para aquele tempo, pois o rego vinha rasgando a serra da Conceição pelo meio, e na passagem das grotas empregava-se a alvenaria com cimento para fazer um duto em bases de pranchões de aroeiras cobrindo os vãos. A primeira providência do Zezinho, quando chegou ao Núcleo foi levantar uma casa para abrigar sua família e o ponto escolhido foi exatamente sobre as ruinas do casarão de Joaquina, quando nas escavações deram com algumas moedas antigas – não identificadas. Pensou-se, logo, e espalhou-se: era sinal do tesouro de Joaquina, o que me inspirou a escrever o romance Joaquina uma lenda urucuiana. Numa oportunidade, mas tarde, em uma de nossas viagens a São Romão, na volta, por imprudência do motorista do caminhão, ficamos sem gasolina. A sorte é que estávamos na altura do Riacho do Mato e sabíamos que para lá o Zezinho tinha se mudado com a família. Fomos a sua procura e ele nos recebeu, deu pouso e alimentos. A fazenda de Zezinho (com outro nome do proprietário) está nas páginas do livro Joaquina – Fim e um sonho.

SÃO ROMÃO

São Romão dos Torres. Em nossas visitas a São Romão, geralmente no feriado do Carnaval, sempre havia baile nas casas de amigos e no Riacho. Uma das casas era a do João Torres – outro Torres com quem também fizemos amizade era o Edmundo. A nossa turma (Bandeirantes) fez grande amizade com os Torres Mário (que chegou a jogar no nosso time de futebol na Conceição) e Gilson, que gostava muito de tocar violão e cantar. Boas lembranças.

OS CAXITOS: que gente boa. Dona Ascenção uma grande mulher. Nos meus arroubos de juventude (assim como você narra em seu livro), eu e Chico tomávamos conta da venda/bar do Didito (filho dela). Lá pras tantas, já bem trolado, sem poder andar em busca do hotel do seu Eustáquio, a generosidade de dona Ascenção me acolhia. E qual quarto me ofereciam (meu, Deus!): a do Frei Pedro.

Américo Bezerra. Não me fiz muito próximo dele, mas tive a graça de conhecer a sua filha Shirley, amiga da Penha, companheira das idas ao Riacho.

Grupo Escolar Afonso Arinos: por duas vezes estive em suas dependências, na época de eleição. Eu era eleitor da Comarca de São Romão. Episódio: Zé da Palma me lançou candidato a vereador, sem me consultar. Não pedi votos a ninguém. Pelo contrário, no dia da votação, fiquei sabendo do sonho de um amigo trombonista da banda dos Bispos (não me lembro do nome dele). Seu sonho era ser vereador. Não tive dúvida, votei nele. É claro que perdi, não fui eleito (ou ganhei).

Os passeios ao Riachinho eram das melhores coisas em nosso entretenimento. Havia lá, na época, um pequeno rancho. Na sala, um cupim no meio (estranho), era nossa pista de dança, tudo animado por sanfoneiro. Depois o banho nas fantásticas águas, tão puras, da vereda.

Não me lembro da igrejinha de Santa Terezinha que é retratada em seu livro numa passagem de intensa emoção, vivida tanto por Zezé quanto por Misu. Confesso, fui às lágrimas diante da grande dor de Zezé com a perda do filho amado Pedrinho.

Na segunda parte da carta fugi até Pirapora onde também tem passagens do livro e, por fim, voltei à Conceição (município de São Romão, onde vivi 3 anos).

RUA TRADICIONAL

Texto e Fotos: João Naves de Melo

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