URSÃO SUMIDO

0

Passeando pelos verdes prados do reino, o Instigador mostrando-se intrigado, buscava refletir sobre os últimos acontecimentos envolvendo Fanfarrão e Ursão. Em dias nem muito longe ele acompanhava a movimentação dos dois importantes personagens que tinham os olhos no trono do reino, ansiosos e desejosos de descansar os braços no espaldar do lustroso e cobiçado trono. Ele repisou o que se desenhava. Fanfarrão guardava ainda o gosto de ter sentado no trono, de ter coberto o reino em seus limites com sua vontade única. Vontade que se tornou absoluta depois de ele ter afastado o conselheiro que o colocara no poder – restou ao pobre e ambicioso conselheiro, como o fora Richelieu, apenas um desabado: “criei um monstro”. Viajando no tempo, não muito remoto, lembrou Instigador que o Fanfarrão usufruiu o tanto que pode do poder – usufruiu, usurpou, amealhou e coisas mais que um bom rei faz. Bom porque fazia agrados aos súditos, muito mais atencioso com sua entourage. Não dava muita coisa, mas tinha um infalível método de agradar, de cativar os seus dependentes. Distribui mimos, pois sabia que seus súditos, em grande maioria, não era lá muito de trabalhar, mas de muito na ânsia de ganhar, que fosse uma tutaméia. Fanfarrão conhecia os costumes de seus vassalos e tirava lições da prática de pescadores amadores no preparo de sevas para pegar peixes com facilidade, sem precisar mudar de barranco e sem despender qualquer esforço – dava aos poucos para recolher muito. É dando que se recebe – muito bonito quando se dá de si e não das despensas do reino, ou dar já pensando como maior será o retorno. Nisso o Fanfarrão foi sempre muito bom.
Instigante acompanhava a movimentação do Fanfarrão, aquele jeitão de quem não quer nada querendo, um abraço aqui, outro ali, um afago, um sorriso e sempre presente – ele está preparando o caminho, muito sutilmente. Por outro lado, intrigava-o o recuo do Ursão, que, em certo momento, despontou como uma tempestade, nuvens negras e pesadas quem chega de repente, sem anunciar – turva o céu, raios e trovões e… não aconteceu, pois diz o ditado popular no reino que muito barulho é sinal de pouca chuva. O rompante do Ursão, causando furor, ocupando todos os espaços do reino, de olho no trono, chamava atenção, muito mesmo. Quem não o conhecia – e são tantos – sempre interrogava: Estaria ele com intenção de usurpar o trono, estaria maquinando uma tomada de poder, como dantes e distantes tempos nos reinos medievais acontecia? Poderia não ser um usurpador, mas era, sem dúvida, um estrangeiro aventurando no reino do Fanfarrão. O Ursão errou muito na sua estratégia de aparecer, de se mostrar forte e, como diz o ditado no reino, “deu com os burro n´água”, começou enfrentar muitas resistências e, com isso, teve que desacelerar sua caminhada em busca do trono. Mas não morreu, está ali, tal como besouro em tempo de seca – hibernando. Com ele todo cuidado é pouco e isso sabe o Fanfarrão que ataca pelos flancos.

Campartilhe.

Comentários desativados.