VOZES DOS CIDADÃOS

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João Naves de Melo

JOSÉ AGUIAR, IEIÉ – VI

Primeiro fato: Ieié casou-se com Cecília Antunes, primeiro eclesiasticamente, em Brasília, indo morar no Jacu. Passados alguns anos resolveram casar-se no civil. Teriam que se deslocar até Brasília, sede do município, considerando que não havia cartório na Vila. Isso, naquele tempo era muito difícil. Ora, ali do outro lado do Guariba já era São Francisco e na Vila do Morro tinha o bendito Cartório, era mais perto. Acontece que Ieié, amigo do escrivão, conseguiu uma deferência toda especial: que ele se deslocasse até à divisa dos dois municípios e, assim, ele e dona Cecília casaram-se no município de São Francisco, na beira do Córrego, a pouco mais de 1 km do Jacu.

Ieié começou a vida como tropeiro, conta Zé Aguiar. Ele tinha duas tropas. Transportava mercadorias desta região para Curvelo – levava toucinho e sal (que vinha do Nordeste através do rio São Francisco) e de lá trazia tecidos, arame farpado, café, querosene e outras mercadorias. Trazia, também, as famosas selas curvelanas que só os ricos usavam. Entrava ano e saía ano e as viagens não paravam. Ieié, montado num burro, acompanhava todas as viagens..

Uma curiosidade: nessa época o Zezé Botelho e o sr. Dodô (pai adotivo de Ernestina Botelho) tinham, também, duas tropas, viajando todas juntas com as tropas de Ieié. Era um belo espetáculo, um “barulho enorme”, quando chegam numa localidade com os guizos nos peitorais das mulas madrinhas das tropas zoando que nem música.

“Toda tropa tinha uma madrinha – era a mula de frente, toda enfeitada com tiras de pelego e um peitoral cheio de guizos de diversos tamanhos que produziam sons diferentes e formavam um concerto musical maravilhoso. A posição da madrinha da tropa era respeitada por todos os burros e nenhum tropeiro se atrevia passar na frente…”, lembra Zé Aguiar, com saudade.

Ieié, de tropeiro passou a ser dono de caminhão, sendo um dos primeiros proprietários desse tipo de veículo na região. Na atividade, no entanto, ele assomou um grande fracasso. A viagem, para ir e vir, a Montes Claros, leva até dois meses. Quando o caminhão quebrava era um Deus nos acuda, pois as peças eram despachadas de São Paulo.

Outra atividade do Ieié foi a de boiadeiro – por muitos anos ele comprava bois aqui na região e os vendia em Montes Claros e até mesmo noutras cidades mais distantes.  Comprou boiada de Tarcísio Generoso, Oscar Caetano Gomes e Antônio Ramalho, na fazenda Barreirinho. Desse tempo, Zé Aguiar sabe um punhado de histórias pitorescas, envolvendo marruás e bichos que certamente ainda virão a lume.

Zé Aguiar, nos seus 12 anos de idade, acompanhou uma jornada em que seu pai conduzia mais de 280 bois, que vendeu para o capitão Enéas Mineiro de Souza. A viagem, da fazenda Poções a Montes Claros levou 7 dias. E diz Zé Aguiar: “o meu cavalinho tinha o nome de Petisco. Ele era muito bom e bonito. Selinha nova, chapéu de couro, com barbela, bota e esporas. Tudo para mim era, enfim, uma maravilha”.

Na jornada tinha os pontos certos de pouso, em fazendas que eram próprias para receber boiadas, os pastos cercados,e os boiadeiros em ranchões – os donos do gado às vezes eram convidados para pernoitar na sede da fazenda, com o proprietário.

De 12 a 15 vaqueiros conduziam o gado. Na frente os guias, tocando o berrante. Casualmente, sem ninguém perceber, ficava um boi para trás, mas, no caso, bastava tocar o berrante que ele vinha de carreira se ajuntar ao rebanho. No caso de boi arribado mais renitente, às vezes, era preciso ser recuperado pelos peões.

Na frente, bem antes, da boiada, ia o cozinheiro com sua tralha, ele tinha que chegar antes no ponto para preparar a comida dos tropeiros. O almoço era de manhã, geralmente a feijoada que era preparada à noite.

Essa é a história de Zé Aguiar, o filho – boiadeiro, comerciante e, por fim fotógrafo que levou ao inesquecível presidente Juscelino uma foto da avenida que tinha, em São Francisco o seu nome, dele e, por isso, recebendo um agradecimento especial e ficou sabendo, ainda, que ele conhecia São Francisco e sua gente.

Um pouco também, de passagem, da vida de José Aguiar, o pai, ou Ieié, que também faz parte da história de São Francisco, pelo trabalho e família que aqui constituiu.

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