Marty Supreme: uma ode ao individualismo

O longa representa a estreia de Josh Safdie em trabalho solo
Timothée Chalamet entrega sua performance mais impactante até agora / Foto: Divulgação

Em 2019, assistia a Bom Comportamento, longa dos irmãos Safdie lançado em 2017, e me fascinava pelo estilo ansioso de filmagem de rua, câmera na mão, e por uma narrativa que imediatamente me lembrava um dos meus filmes favoritos: Depois de Horas, de Martin Scorsese. Logo depois, veio Joias Brutas, e ali fiquei definitivamente cativado pela dupla. Quando soube que os irmãos seguiriam caminhos separados, a curiosidade era inevitável: para onde cada um levaria esse cinema?

Em Marty Supreme, acompanhamos a ascensão de um malandro que se torna uma lenda do tênis de mesa norte-americano. Seu nome é Marty Reisman (Timothée Chalamet), e ele evolui de partidas de apostas em Manhattan para campeão de mais de 22 torneios, conquistando, aos 67 anos, o título de atleta mais velho a vencer um campeonato nacional de raquete. Marty Mauser se recusa a ser apenas mais um trabalhador precarizado na Nova York dos anos 1950. Ele não mede esforços para alcançar seus sonhos megalomaníacos, mesmo que seja necessário roubar. Contra todos que duvidaram dele, atinge a grandeza em torneios internacionais, mas acumula inimigos pelo caminho.

Marty Supreme parece encerrar a trilogia iniciada em 2017, mantendo o foco em protagonistas moralmente dúbios, que perambulam pelas ruas sendo expulsos de espaços enquanto buscam ascensão, seja pelo roubo, seja pelas apostas. Marty Mauser é um judeu nova-iorquino talentoso no tênis de mesa e carismático; ele reúne todos os traços que anunciam o sucesso, funcionando quase como um “destino manifesto” que guia sua ambição e lhe dá propósito.

Há, de certa forma, uma ode ao individualismo. Josh Safdie não poupa registros para mostrar as estratégias que Marty emprega para chegar ao topo. Mais uma vez, acompanhamos um personagem de ética questionável correndo incessantemente atrás de uma ascensão social que acredita lhe ter sido prometida pelo divino.

A carreira de Josh Safdie pode ser lida em capítulos. Em Daddy Longlegs (2009) e Heaven Knows What (2014), ainda com o irmão, ele explorava indivíduos no capitalismo tardio tentando sobreviver nos Estados Unidos, empurrados para as margens da sociedade. Essa crítica se intensifica em 2014, quando a protagonista é constantemente expulsa de espaços, expondo com clareza a estratificação social do país.

A partir de Bom Comportamento, surge uma ansiedade acelerada mais próxima de Depois de Horas do que de John Cassavetes, referência evidente nos trabalhos anteriores. É quase uma experiência de laboratório: os personagens de Safdie correm por labirintos em busca de recompensa, dominados pelo dinheiro. Isso atinge o ápice em Joias Brutas, onde o dinheiro quase não aparece fisicamente, mas domina a narrativa como uma energia metafísica, refletindo nos olhos dos personagens e tornando-se a única forma de encarar o status quo em que estão presos.

Em Marty Supreme, Safdie constrói uma narrativa eletrizante que conclui essas histórias de homens tentando desafiar o sistema. O uso do gênero esportivo é particularmente interessante: mais do que um drama clássico, o filme funciona como um suspense esportivo. No esporte, existe uma meritocracia intrínseca: vence quem é melhor. Mauser, plenamente consciente disso, sabe que tem o necessário para chegar ao topo. Ainda assim, o filme evidencia a falha sistêmica que o mantém correndo incessantemente, batendo contra paredes cada vez mais espessas para alcançar seus objetivos. Romper com ética e moral surge não como escolha, mas como ausência de alternativas.

Embora Marty seja judeu, Safdie não o filma a partir da perspectiva do judeu oprimido, como em narrativas mais convencionais. Marty é um personagem cuja ambição desafia o status quo: manipula, transa, vive, conquista, engana. É inexorável na busca pela sua promessa.

Consequentemente, Timothée Chalamet entrega sua performance mais impactante até agora. Magnético e maximalista, ele extrapola os limites do filme, inclusive nas estratégias de marketing do longa, com o slogan DREAM BIG, a cor laranja e as bolinhas de tênis de mesa. Marty Mauser escapa da tela e invade a vida real.

A ambição é venerada pelo capitalismo, basta abrir qualquer rede social para encontrar alguém vendendo a ideia de que ela sempre leva mais longe. A não ser, claro, que essa ambição confronte o sistema estabelecido. Na Nova York do filme, lindamente fotografada por Darius Khondji, Safdie separa visualmente o protagonista de seu rival, vivido por Kevin O’Leary, cuja persona de bilionário do Shark Tank reforça o contraste social.

Aqui reside o catalisador da crítica de Josh Safdie: a disputa entre dois judeus em esferas radicalmente distintas da sociedade americana, lutando para ver quem vence no capitalismo tardio. E o sistema deixa claro de que lado está – o do bilionário – evidenciando o colapso da meritocracia vendida como mito social.

O esporte se torna, então, um instrumento de manutenção do capitalismo e de venda dos produtos dos bilionários. No fim, quem vence ou perde torna-se quase irrelevante dentro desse sistema. Marty Mauser permanece preso, combatendo algo maior que seu talento e ambição.

Dito isso, é impossível não comparar Josh com seu irmão Benny, em Coração de Lutador. Ambos exploram a odisseia do fracasso: Josh com sua narrativa eletrizante e correria constante, revisitando Depois de Horas; Benny com a melancolia de personagens lidando com derrotas profundas, em um tom contemplativo e distante da aceleração ansiosa.

Ao focar no lado humano do personagem de Dwayne Johnson, Benny encontra nos silêncios pós-derrota algo mais poderoso do que a corrida incessante. Em vez de repetir uma fórmula, ele constrói seu próprio Touro Indomável. Mesmo preferindo o filme de Josh, não posso deixar de admirar a habilidade de Benny neste longa.

Logo, para mim, os irmãos Safdie seguem sendo algumas das figuras mais fascinantes do cinema americano do século XXI.

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