A poética entre tempo e espera de “A voz de Hind Rajab” 

O longa-metragem da cineasta Kaouther Ben Hania, constrói um relato do resgate de Hanood, revelando a dimensão humana da guerra e o tempo que se arrasta nos bastidores do conflito
Indicado a Melhor Filme Internacional no Academy Awards de 2026, o longa constrói sua narrativa como um exercício de escuta / Foto: Divulgação

Máscaras neutras, larvárias e expressivas. Jacques Lecoq, pedagogo do Teatro do Movimento, defendia que é na “escrita” corporal que nasce a verdadeira expressão. Ao cobrir o rosto, a máscara retira do intérprete o recurso imediato da mímica facial e o obriga a deslocar toda a emoção para o corpo, tornando o silêncio um elemento ativo da cena. Ao atuante é solicitado rejeitar o excesso: o mínimo de som, o mínimo de gesto. O mínimo de voz.

Esse princípio ecoa em Hanood, o diminutivo de Hind Rajab. Aos seis anos, é assim chamada pelos familiares e, depois, pelos socorristas durante as três horas de tentativa de resgate. Presa em um carro cercado por destroços, em uma área sob domínio militar no norte de Gaza, a menina fala, a princípio, sem rosto. Sem gestos. Sem corpo visível. Divulgada pelo governo palestino, a gravação da voz de Hind Rajab torna-se o fio de esperança ao qual se agarram Omar (Motaz Malhees), Rana (Saja Kilani), Nisreen (Clara Khdury) e Mahdi (Amer Hiehel), membros da Crescente Vermelha, enquanto tentam localizá-la.

É justamente essa ausência visual que estrutura a proposta de A Voz de Hind Rajab. Indicado a Melhor Filme Internacional no Academy Awards de 2026, o longa constrói sua narrativa como um exercício de escuta. A direção de Kaouther Ben Hania, única mulher entre os cinco indicados na categoria, aposta na dilatação do tempo ao longo de 90 minutos entre ligações que caem, tentativas falhas de coordenação com a Cruz Vermelha e o medo crescente a cada frase da menina. “Vocês vêm me buscar?” coloca o espectador e os socorristas em pé de igualdade, partilhando a mesma condição de sentir e imaginar aquilo que, num primeiro momento, não pode ser visto.

Essa distância inicial, porém, se transforma quando as primeiras imagens chegam. Embora saibamos desde o início que se trata da voz de uma criança, ela permanece quase abstrata até que fotos de família aparecem. Hanood surge sorrindo em retratos que congelam um instante de normalidade anterior à tragédia. Há aqui algo das máscaras descritas por Lecoq: o rosto fixo não revela, mas sustenta uma forma imóvel que contrasta violentamente com aquilo que ouvimos. Esse choque ecoa no jogo entre registros verídicos do dia e a encenação construída pelo filme.

Enquanto isso, do outro lado da linha, Mahdi, coordenador do grupo, observa o quadro que reúne os rostos daqueles que não foram resgatados e dos socorristas que morreram tentando salvar outros. A imagem evoca a visão tolstoiana presente em War and Peace (1869). Assim como Leo Tolstoy revela o funcionamento impessoal e esmagador das operações militares, nas quais esforços individuais frequentemente se perdem diante de forças maiores, o filme evidencia a brutalidade burocrática das comunicações em busca da “luz verde”, a autorização necessária para que a ambulância avance por um caminho considerado seguro.

Dentro do carro cercado por destroços, Hanood espera. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. A UNICEF contabiliza: cerca de 28 crianças perdem a vida por dia em Gaza. Outras famílias choram filhos que não terão voz de resgate; outros socorristas enfrentam a destruição e também desaparecem. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. “Na manhã de segunda-feira, vimos imagens de uma criança pequena presa em uma escola em chamas na Cidade de Gaza. Esse ataque, nas primeiras horas da manhã, matou pelo menos 31 pessoas, incluindo 18 crianças”, declarou o diretor regional da UNICEF para o Oriente Médio e Norte da África em 2025. Boom. A espera de Hanood torna-se, assim, uma lembrança silenciosa de todos aqueles para quem o tempo já acabou.

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