
Passear pelas entradas adentro faz refletir sobre como teria sido o caminho antes das trilhas asfaltadas. Se fazer o trajeto norte-sul já é exaustivo no conforto de um transporte, imagine desbravar do zero o percurso menos íngreme, derrubar as barreiras do terreno e carregar o material necessário para abrir uma estrada ou assentar um trilho que, mais tarde, seria substituído por uma ferrovia. Tão viva quanto a árvore tombada para dar passagem é a marca das mãos silenciosas de quem fez o caminho existir, e Robert Grainier (Joel Edgerton) é a ilustração de uma delas.
Com seu enigma, Robert guia o espectador pelas nuances de sua existência como trabalhador no início do século XX. Em “Sonhos de Trem” (2025), as jornadas que partem de Idaho, sua terra natal, para onde o trabalho o convoca são atravessadas pelos relacionamentos humanos, por mais breves que sejam. Os encontros e desencontros com outros trabalhadores durante as viagens revelam homens igualmente moldados pela dureza da paisagem: mesmo quando os personagens ocupam a tela por poucos minutos, há uma aproximação que impede que se tornem apenas função dramática.
Seres como o velho Arn Peeple (William H. Macy), apesar de cruzarem brevemente o caminho de Robert, têm parte de sua motivações pessoais apresentadas a quem assiste, e quando a morte os alcança, não é apenas um evento em segundo plano, como é comum de se ver em outras obras de ação, quando o personagem principal se salva em meio às inúmeras quedas em fogo cruzado, mas cada ausência passa a integrar o caminho de Robert, ampliando o peso da solidão que ele carrega, feita dos que ficaram para trás e das possibilidades de reencontro. Soma-se a isso a morte do trabalhador chinês, em especial, que não se dissolve na poeira da ferrovia. A lembrança desse episódio passa a operar como uma sombra persistente, fazendo Robert questionar se não estaria ali a origem de todos os outros males que o alcançam.

A despeito desses breves encontros a trabalho, a jovem Gladys (Felicity Jones) entra na trajetória do lenhador com a promessa de ficar, dando ainda mais impulso à narrativa que deságua em amor e perda. Com ela, Robert experimenta uma forma de pertencimento construída nos gestos mínimos, que contrastam com a aridez da floresta e da rigidez do serviço, potencializados ainda mais pela chegada da pequena Kate, filha única do casal.
“Sonhos de Trem” recebeu quatro indicações ao Oscar 2026, incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Canção Original. Em meio a superproduções e narrativas estridentes, é reconfortante ver uma sequência de filmes em destaque que colocam a delicadeza para ocupar espaço central, como também acontece em “Hamnet: A vida antes de Hamlet”, em que a cineasta Chlóe Zhoae igualmente faz o feliz esforço de traduzir à cena o sentimento de luto. Assim, os casais Agnes e William e Robert e Gladys dialogam na dor da perda e na fragilidade dos sentimentos humanos quando longe de quem se ama.
Seguindo essa mesma pulsação, em “Sonhos de Trem”, o diretor estadunidense Clint Bentley faz uma escolha precisa ao investir em enquadramentos mais íntimos sob a Fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, que se demoram nos rostos, nas mãos, nos silêncios que atravessam a cena. Apostando em uma atmosfera que valoriza a luz ambiente e os registros nas interações mais simples entre os personagens, o filme compreende que a emoção não precisa ser amplificada por trilhas grandiosas ou reviravoltas bruscas, mas pode emergir de um olhar sustentado por segundos a mais, de uma respiração partilhada com o espectador e de símbolos que, justamente por sua sutileza, potencializam-se.
Também há o uso da narração que, aqui, felizmente, não provoca a sensação de assistir à mesma cena duas vezes: pela voz de fundo e pelo visto em tela. Isso porque o roteiro de Bentley e Greg Kwedar transforma o narrado por Will Patton em uma espécie de consciência expandida, capaz de dizer aquilo que Robert não consegue formular em palavras, funcionando mais como meio de expansão do que redundância. É por meio dessa narrativa, inclusive, que o filme respira nos desvios da linearidade: quando rompe a cronologia e costura idas e vindas entre as imagens da expansão da ferrovia aos sonhos de Robert com a família.
Ao fim, o drama de época “Sonhos de Trem” leva o espectador a uma viagem pela memória, pela perda e pela permanência. O sentimento que fica é de uma boa surpresa ao ver uma obra que se apresenta, a uma leitura breve da sinopse, como um relato dos oitenta anos de vida de um lenhador, mas que se expande ao abordar a consciência de que cada avanço carrega ausências, afetos interrompidos e sonhos que seguem adiante.


















