Em “Abissal”, Rosa escreve, mesmo que por outras caligrafias

Lançado em 2016, o curta-metragem de Arthur Leite está disponível na plataforma Siará +
Em “Abissal”, o jovem cineasta Arthur Leite traz o gosto da caneta em mãos e o cheiro do papel antigo / Foto: Danielle Rotholi

Até nas mal traçadas linhas, ambiguidade e contradição encontram abrigo. Era anos noventa, quando Renato Russo transformava a carta em canção, dando forma aos pedidos de perdão e às tentativas de permanência de um remetente diante da distância. “Porque veio a saudade visitar meu coração / Espero que desculpes os meus erros, por favor / Nas frases desta carta que é uma prova de afeição” fazem lembrar de quando a escrita a punho era mais comum.

Em “Abissal”, o jovem cineasta Arthur Leite traz o gosto da caneta em mãos e o cheiro do papel antigo. O documentário é uma produção pessoal, partida de um projeto de pesquisa motivado a investigar a vida do avô, Durval, que Arthur nunca conheceu. Mas o que emerge, pouco a pouco, é a presença densa de sua avó, Rosa, que passa a ocupar o centro do quadro e da memória.

O que se destaca é a escrita como travessia afetiva. Afastados pela relação e pela distância, as cartas que Rosa enviava ao então marido eram sopradas à filha, Alba, que se torna não apenas escriba, mas ponte viva entre o sentir e o dizer. Como Dora de “Central do Brasil”, à Alba é dada a autoria que se desfaz nas camadas entre a voz de uma, o traço da outra e o destino na promessa da leitura. Nesse intervalo, o diretor, narrador e roteirista não escuta apenas sua avó ou sua mãe, mas a fricção entre elas, o que foi traduzido e, sobretudo, o que permaneceu irredutível à linguagem. É no abismo onde o afeto insiste que o filme se desenrola. Cada palavra carrega o peso de uma ausência prolongada, uma tentativa de construir ponte sobre uma distância não apenas geográfica, mas emocional.

Ao recuperar essas cartas, o filme expõe o ato de tentar dizer e a impossibilidade de dizer tudo. Sob a fotografia de Daniel Pustowka, a câmera observa Rosa como quem espera o momento em que a memória decide, por conta própria, emergir. Do primeiro plano ao último plano, lá está ela, constantemente enquadrada por uma perspectiva retângular de uma janela. Ora observando o movimento da rua, ora entregue ao vaivém silencioso da cadeira de balanço, Rosa habita esse limiar entre dentro e fora, entre o que permanece e o que já partiu

Em seus pouco menos de vinte minutos, “Abissal” traz humor, ironia e vitalidade que compreendem que algumas histórias pedem escuta, não solução. Ao fim, o que o filme oferece é a presença inteira de alguém que, mesmo depois de tudo, ainda sustenta no rosto a promessa silenciosa de quem tem, sim, algo a mais para contar.

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