
Ryan Coogler me impressiona desde a primeira vez que vi Creed. Ali, já demonstrava um talento raro: entrar em uma grande franquia e, sem medo, imprimir um olhar autoral sofisticado, incorporando questões raciais à engrenagem da indústria. Depois disso, foi um dos poucos diretores capazes de entregar um filme com profundidade dentro do universo Marvel. Pantera Negra permanece como um marco na lógica industrial dos enlatados do estúdio.
Agora, ao apostar em uma obra original e explorar o gênero do terror, Coogler evidencia uma evolução clara em relação ao seu último trabalho. Em Pecadores, Michael B. Jordan interpreta irmãos gêmeos que retornam à cidade natal com o desejo de reconstruir suas vidas e deixar um passado conturbado para trás. Mas o passado ressurge quando uma força maligna começa a persegui-los, trazendo à tona medos e traumas profundos. Essa entidade busca dominar a cidade e seus habitantes, obrigando-os a lutar pela sobrevivência. Mais do que enfrentar demônios sedentos por poder (e sangue), Smoke e Stack precisam lidar com lendas e mitos ameaçadores, que parecem estar na raiz desse terror.
Em mais uma parceria com Michael B. Jordan, o ator entrega claramente a atuação mais ambiciosa de sua carreira. O conceito do duplo potencializa sua performance, e Coogler explora isso com precisão, criando uma dinâmica visual e dramática tão bem construída que as transições entre planos, com Jordan contracenando consigo mesmo, se tornam quase imperceptíveis.

A criação de atmosfera é um dos grandes acertos do filme. Coogler mistura uma estética de cinema B trash com o espaço sitiado por uma ameaça que é ao mesmo tempo física, abstrata e socialmente construída. Pecadores funciona como um filme de cerco à la Assalto ao 13º Distrito, de John Carpenter, mas com orçamento elevado e ambientação de faroeste minimalista: uma vila do interior americano onde os irmãos tentam erguer um empreendimento que honra sua etnia, criando um espaço seguro para seu povo.
Quando as peças se alinham na serraria durante a festa, Coogler acelera a narrativa com destreza. A partir daí, constrói uma mitologia densa, usando a música como principal catalisador dramático, até a revelação do vilão. É nesse ponto que o diretor explicita sua metáfora, apropriando-se da mitologia do vampiro.
Utilizando apenas os elementos mais básicos desse imaginário vampiresco, Coogler constrói uma epopeia contra o racismo estrutural americano. Engana-se quem reduz a alegoria a uma crítica superficial à “apropriação cultural”, como circulou nas redes sociais. O filme propõe algo mais complexo: a possível união dos oprimidos contra a máquina histórica de opressão nos Estados Unidos, por meio da fantasia.
Remmick é irlandês, um detalhe nada casual. O povo irlandês, majoritariamente descendente dos gaélicos, sofreu intensa opressão sob o imperialismo britânico. No filme, o vampiro se apresenta como alguém muito antigo, e seu passado claramente remete a esse contexto colonial. A Irlanda foi duramente dominada, e essa memória atravessa a construção do personagem.
O interesse de Remmick pelas pessoas vai além da caça: há nele um desejo de compartilhar o trauma da opressão, uma tentativa de união simbólica por meio da mitologia. Isso se materializa de forma exuberante no número musical “I Lied To You”, em que a música atravessa épocas e culturas, do blues ao hip hop, do jazz contemporâneo a referências orientais, como as gueixas, em um momento quase ritualístico. Essa comunhão já se estabelece, inicialmente, entre os humanos.
O mesmo acontece em outro momento-chave, com a celebração ao som de “Rocky Road to Dublin”, reforçando o ritual de troca entre etnias. O interesse inicial do vilão pela arte do povo preto nasce da beleza desse ritual como forma de resistência à opressão. No entanto, ao trabalhar apenas a face mais ameaçadora dos vampiros e não aprofundar todos os temas que a obra propõe, Coogler acaba achatando parte da ambiguidade. Fica faltando elaboração para que a premissa se sustente plenamente.
Talvez isso ocorra porque o filme tenta lidar com múltiplos gêneros e temas simultaneamente, precisando se manter conciso e seguro dentro das exigências de um grande orçamento. Com isso, algumas questões se diluem. O conflito se torna mais maniqueísta, com o vampiro claramente vilão, quando, na verdade, o verdadeiro antagonista é a branquitude da Klan, reduzindo nuances do debate.
Ainda assim, no final, Coogler reafirma sua força ao usar a ficção e o cinema de gênero como armas contra a opressão sistêmica. A mitologia fantástica serve para confrontar a Klan de forma anacrônica e simbólica. Em Pecadores, ser fantasioso é ser combativo. Fugir do real torna-se o gesto mais potente, seja pela música, pela performance ou, sobretudo, pelo cinema. E é inspirador ver uma obra original de terror ser reconhecida tanto nas bilheteiras quanto nas premiações.














