“Hamnet” celebra a arte em meio ao trauma

Zhao foi a escolha perfeita para contar essa história do ponto de vista de uma mulher à frente de seu tempo
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O filme foi indicado a 8 categorias do Oscar / Foto: Divulgação

Após uma breve passagem pela Marvel, a diretora Chloé Zhao volta à forma e ganha destaque novamente com o filme mais comovente e belo na corrida para o Oscar 2026. Baseado no romance de Maggie O’Farrell, o enredo aborda o processo de William Shakespeare ao escrever sua obra-prima Hamlet.

Você pode se perguntar qual o propósito de assistir mais uma vez a um filme sobre uma história já familiar, cuja genialidade do escritor é amplamente apreciada. Porém, o célebre dramaturgo não é o foco do roteiro; a protagonista é sua esposa, Agnes, que lida com o luto após a morte do filho.

A atuação de Jessie Buckley é o grande destaque do filme, uma performance favorita para a estatueta de Melhor Atriz na 98ª edição da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Sua interpretação é tão marcante que até Paul Mescal, um dos queridinhos atuais de Hollywood, fica em segundo plano. É uma abordagem que chama a atenção, considerando as inúmeras releituras e adaptações da tragédia do príncipe dinamarquês já feitas no cinema.

O arquétipo do gênio artístico que transforma sofrimento em inspiração para criar sua melhor obra fica em segundo plano. Se você busca uma celebração do grande William Shakespeare, bastidores do teatro ou um filme biográfico tradicional, o filme de Zhao está longe desse modelo, mais próximo de obras como Shakespeare Apaixonado (1998), que seguem a linha clássica da Academia.

Zhao foi a escolha perfeita para contar essa história do ponto de vista de uma mulher à frente de seu tempo, subversiva segundo os padrões da época e dotada de uma personalidade cativante. A estética contemplativa nos convida a entrar naquele mundo: admirar e se conectar com a natureza como Agnes, se divertir com as crianças e se emocionar com a encenação da peça. O encerramento é capaz de comover qualquer espectador, intensificado ainda mais pela trilha sonora de Max Richter.

É uma história sobre amor: o amor de uma mãe pelos filhos, disposto a tudo para protegê-los; o amor entre irmãos, que se sacrificam pelo bem do outro; o amor pela natureza, que nos ensina a valorizar o que a terra oferece; e, claro, o amor pela arte — uma arte que nos faz sentir e que reforça por que Hamlet se tornou eternamente universal.

É curioso notar que, entre os indicados, há temas semelhantes. Assim como Pecadores (2025), Hamnet mostra o poder da arte como fonte de união; e, à semelhança de Valor Sentimental (2025), investiga o processo criativo a partir das vivências dos artistas. A arte não cura nem resolve nossos problemas, mas talvez ajude — e é por isso que a celebramos.

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