Hamnet: Chloe Zhao entre o Oscar e a força do sentimento

O palco de teatro não ocupa grande espaço literal na narrativa, mas sua presença simbólica reverbera ao longo do filme
O filme foi indicado a 8 categorias do Oscar / Foto: Divulgação

O cinema de Chloé Zhao sempre me causou certo desinteresse. Não gostei de Nomadland e, ao vê-la se dedicar a um filme pouco interessante do universo Marvel, afastei-me ainda mais de sua filmografia, até que a proposta de Hamnet despertou minha atenção.

Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, um dos maiores escritores do cânone ocidental, William Shakespeare, vive uma tragédia ao lado de sua esposa, Agnes, quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino e, nesta ficção sobre a vida doméstica do dramaturgo, Agnes assume o papel de narradora e ponto de vista central da narrativa, conduzindo o espectador pelo luto que acompanha a perda precoce do herdeiro.

Embora o filme trate de Shakespeare e da gênese de Hamlet, Zhao desloca o foco. Ela evita a teatralidade que se poderia esperar do Bardo de Avon e opta por um naturalismo com pinceladas que evocam Terrence Malick, além de uma sutil misticidade no subtexto que diferencia a obra das tradicionais biografias sobre gênios incompreendidos. O centro é Agnes, esposa, mãe e figura espiritual, que, desde a infância, se entrega a um misticismo bucólico, quase associado à bruxaria, através de suas raízes, rituais e relação singular com o mundo.

O ato de contar histórias por parte de Shakespeare fica em segundo plano. O que emerge é a subjetividade dessa mulher que o acompanha. O filme poderia facilmente cair em um discurso panfletário, retratando o Bardo como pai ausente e a mãe como mártir sofredora, mas prefere explorar outras frentes.

É nessa mitologia íntima criada por Agnes que reside a maior riqueza do filme. Sua relação com o místico e o metafísico produz momentos potentes, amplificados pela bela interpretação de Jessie Buckley e pela trilha minimalista de Max Richter. Ao abordar eventos históricos como a peste bubônica, sempre filtrados pelo olhar incomum de Agnes, Zhao constrói sequências impactantes com o jovem Jacobi Jupe, que em certos momentos remete ao horror folclórico de The Witch, de Robert Eggers.

O palco de teatro não ocupa grande espaço literal na narrativa, mas sua presença simbólica reverbera ao longo do filme, sugerindo a relação dessa família com a performance e sua conexão quase orgânica com a arte.

Não me entendam mal: trata-se, sim, de um filme claramente calculado para o circuito de premiações, com atuações moldadas para o Oscar, mise-en-scène cuidadosamente planejada e escolhas pouco disruptivas. Paul Mescal permanece em seu território seguro como o homem melancólico em cena. Ainda assim, Zhao se recusa a reduzir a obra a essa estratégia.

Ela demonstra interesse em refletir sobre a relação das pessoas com a arte em múltiplas dimensões: seja pelo olhar do criador, como Shakespeare, seja pelo da espectadora sensível, como Agnes. Nesse sentido, o longa dialoga com Valor Sentimental, ao sugerir que a superação do trauma e do luto pode ocorrer tanto na manufatura da arte quanto na experiência de assisti-la. As obras de Shakespeare se aprofundam ao dramatizar a história inglesa por meio de conflitos humanos que expõem dilemas existenciais, e o filme parece ecoar essa dimensão.

Ao unir a melancolia do luto ao momento final da encenação da peça, Zhao constrói uma sequência poderosa, comunicando, por meio de imagens delicadas, como uma sala inteira pode, em catarse, experimentar coletivamente a possibilidade de cura.

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