James Cameron leva Avatar à experiência que todo blockbuster busca

O diretor aposta na simplicidade narrativa não como limitação, mas como estratégia
Avatar: Fogo e Cinzas entrega três horas de deslumbramento

O cinema de grandes produções vem sendo, há anos, dominado por franquias cada vez mais engessadas, inundadas por filmes que parecem enlatados: obras pouco preocupadas em oferecer uma experiência de fato cinematográfica e muito mais focadas em vender o máximo de ingressos possível, preparando o público para o próximo lançamento dali a poucos meses. Um modelo que garante a segurança financeira que os estúdios tanto desejam.

Esse movimento foi encabeçado pela gigante Disney, que, com a Marvel Studios sob seu guarda-chuva e seus inúmeros remakes de animações mundialmente amadas, obteve sucesso por muito tempo. A lógica era simples: correr cada vez menos riscos ao levar filmes às telonas.

O cenário se agravou ainda mais após a COVID-19, quando se tornou mais difícil convencer o público a sair de casa para ir ao cinema. Em contrapartida, cineastas como Christopher Nolan e Greta Gerwig, assim como Christopher McQuarrie e Tom Cruise, fizeram um esforço quase hercúleo para tornar o ato de ir à sala escura novamente atrativo – não apenas como consumo, mas como evento.

Agora, em meio a notícias sobre negociações e aquisições envolvendo gigantes como Netflix e Warner Bros., somadas a declarações de Ted Sarandos demonstrando pouco interesse em garantir janelas de exibição nas salas de cinema, James Cameron surge mais uma vez como lembrete essencial: a tela grande e a sala escura são templos dessa arte. Templos que empresas como a Netflix parecem dispostas a abandonar em nome da conveniência e do lucro imediato da sala de estar.

O retorno

Ciente desse contexto, Cameron retorna a Pandora em Avatar: Fogo e Cinzas, acompanhado mais uma vez da família Sully. A narrativa se desloca para a região vulcânica do planeta, um bioma hostil e exuberante, onde a sobrevivência depende do fogo. Após a guerra contra a RDA e a perda do filho mais velho, Jake Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldana) enfrentam uma nova ameaça: o Povo das Cinzas, tribo Na’vi violenta e liderada pelo implacável Varang (Oona Chaplin).

Cameron aposta na simplicidade narrativa não como limitação, mas como estratégia. É a partir dela que cria situações ideais para explorar todo o apuro visual que sempre sonhou. O diretor ocupa uma posição singular na indústria: tem acesso a qualquer orçamento necessário para realizar exatamente o que imagina – e não desperdiça esse privilégio.

Ninguém faz como James Cameron. No filme anterior, ele se dedicava à construção do mundo, revisitando sua própria filmografia sob a lente da paternidade e da família. Aqui, o foco está na resolução. Avatar: Fogo e Cinzas entrega três horas de deslumbramento: paisagens de inúmeras variações, um universo riquíssimo e povos que o habitam com identidade e beleza próprias.

O diretor transforma esse mundo em um verdadeiro parque de diversões cinematográfico, sem abrir mão de temas recorrentes em sua obra – ambientalismo, espiritualidade, guerra e família – que funcionam como pano de fundo para sequências grandiosas, pensadas para encher os olhos. Questões complexas surgem não para dominar o discurso, mas para dar densidade emocional aos personagens e servir de cola dramática entre seus diferentes núcleos.

Hoje há uma obsessão pela exegese: tudo precisa carregar um significado profundo, uma urgência social, como se a obra devesse algo ao mundo em um grito de autoimportância. Avatar: Fogo e Cinzas vai na contramão disso. O que importa é a superfície – as sequências de ação, a contemplação do universo, a quebra constante de barreiras tecnológicas a cada lançamento e, principalmente, a experiência irreproduzível de estar em uma sala escura diante de um projetor.

Em um mundo que parece esquecer esse ritual, vale citar, ainda que indiretamente, Martin Scorsese: se o cinema é a minha religião, a sala escura é a minha igreja.

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