A Única Saída pergunta: até onde você iria por um emprego?

O novo filme de Park Chan-wook apresenta um drama com nuances de comédia ao abordar a crise do mercado de trabalho contemporâneo
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O filme acabou totalmente preterido no Oscar, apesar das projeções favoráveis / Foto: Divulgação

O diretor Park Chan-wook foi um dos primeiros nomes a ganhar projeção internacional com o boom do cinema sul-coreano, especialmente após “Oldboy” (2003), filme que surpreendeu o mundo pela violência estilizada e pelas cenas de ação impecáveis. A partir daí, sua filmografia conquistou ainda mais destaque e prestígio. Depois de apresentar um padre que se torna vampiro e vive um romance obsessivo em “Sede de Sangue” (2009), um thriller de época repleto de reviravoltas e erotismo em “A Criada” (2016) e uma releitura contemporânea do suspense hitchcockiano em “Decisão de Partir” (2022), “A Única Saída” chega aos cinemas brasileiros no início de 2026 com humor ácido e um tema mais atual do que nunca.

Yoo Man-soo (Lee Byung-hun) dedicou 25 anos de sua vida a uma empresa de fabricação de papel. Ao se recusar a entregar uma lista de funcionários a serem demitidos, acaba dispensado junto com outros colegas, recebendo apenas três meses de seguro-desemprego e uma carne de enguia como “presente”, inicialmente interpretado como reconhecimento pelos anos de dedicação. A partir daí, vê sua vida desmoronar e decide recorrer a atitudes extremas para tentar retornar ao mercado de trabalho e reconstruir sua estabilidade.

Embora traga críticas diretas ao contexto sul-coreano, onde a perda do emprego representa fracasso e vergonha social, o tema é universal ao evidenciar que o capitalismo não demonstra complacência nem reconhece esforços individuais. O que importa é a produtividade e o lucro. A demissão, nesse cenário, significa não apenas a perda da renda, mas também a queda no status social de uma família acostumada aos privilégios da elite: aulas de violoncelo, clube de tênis, dois carros grandes… e, claro, a assinatura da Netflix, detalhe que mais incomoda o filho adolescente.

O suspense característico do diretor permanece presente, mas aqui surge com certa leveza, provocando risos nervosos diante do absurdo exibido na tela. A trilha sonora, marcada por instrumentos de corda, amplia o desconforto do espectador, que se vê diante de um dilema moral: trata-se apenas de uma sátira exagerada ou de um retrato incômodo de pensamentos que muitos têm, mas poucos admitem?

A atuação de Lee Byung-hun é precisa e envolvente, equilibrando determinação e fragilidade, firmeza e nervosismo. Destaca-se ainda a perturbadora cena de uma conferência motivacional, que, longe de provocar riso, gera um choque de realidade. É um momento breve, mas que ecoa ao longo da narrativa, refletido nos tiques ansiosos do protagonista.

No fim, a máquina continua a girar e o individualismo prevalece. Man-soo descobre a resposta ainda na primeira entrevista de emprego, diante da clássica pergunta: “Qual é a sua maior fraqueza?” Honra, ética e solidariedade não encontram espaço nesse sistema.

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