
Você já passou por alguma situação social dúbia e desconfortável? Daquelas em que, se for embora, sente que está exagerando, mas se não fizer nada, pode se arrepender? É essa sensação que se instala ao longo dos oito episódios da minissérie Algo Horrível Vai Acontecer, nova aposta de terror psicológico da Netflix.
O roteiro original de Haley Z. Boston acompanha o casal Rachel (interpretada por Camila Morrone) e Nicky (vivido por Adam DiMarco), que ficaram noivos recentemente e decidiram realizar o casamento na casa dos pais dele, em uma área isolada de Nova Iorque, cercada por vegetação e neve. Lá, os protagonistas se deparam com uma série de obstáculos sinistros que sugerem que alguém (ou algo) quer impedir a cerimônia.
Desde o início, a produção deixa claro que pretende submeter o espectador a diferentes níveis de desconforto, e cumpre esse objetivo. É difícil decidir o que é mais suspeito: a decoração da casa, as afetações da família ou os barulhos vindos do lado de fora à noite. A direção conduz o suspense com destreza, mesmo que algumas tomadas se estendam mais do que o necessário, e substitui jumpscares gratuitos por momentos de desespero sufocantes.

Grande parte desse sufoco é sustentada pelas atuações do elenco. Morrone e DiMarco entregam sinceridade nas cenas de intimidade e, em outro extremo, mostram raiva e frustração em discussões intensas, quando falas se atropelam e se interrompem de maneira dolorosamente real.
No quarto episódio, o mais experimental da minissérie, a direção adota o found footage para revelar o passado da protagonista, uma escolha certeira para a narrativa visual. Esse capítulo também traz uma breve referência a David Lynch, com um bar de beira de estrada e cores inconfundíveis formando o cenário perfeito para o “teatro do absurdo”.
Embora a série pudesse ser condensada em dois episódios a menos, Algo Horrível Vai Acontecer se destaca por sua originalidade e por honrar o compromisso com o macabro, o caótico e o sanguinolento. Além do terror, a minissérie provoca reflexão sobre o casamento, a honestidade na relação entre duas pessoas e, principalmente, a dúvida: almas gêmeas realmente existem?

















