Emerald Fennell revisita “O morro dos ventos uivantes” sem pedir consenso

Nenhuma qualidade, porém, isenta o filme de críticas
Jacob Elordi e Margot Robbie são os protagonistas da adaptação de Emerald Fennell / Foto: Divulgação

Publicado originalmente em 1847, no contexto da Inglaterra vitoriana, O morro dos ventos uivantes surge como um romance de paixões violentas e moral ambígua. Assinado por Emily Brontë sob o pseudônimo masculino Ellis Bell, estratégia tanto para proteger sua identidade do preconceito contra escritoras quanto para resguardar a radicalidade de sua visão, o livro agora ganha uma nova adaptação pelas mãos de Emerald Fennell. A diretora retoma o debate cultural em torno da obra e carrega consigo o mesmo desconforto e fascínio que a definem desde a origem. Não por acaso, desde sua publicação, o romance jamais foi consensual: entre fãs apaixonados e críticas contundentes, permanece como um território de embate crítico, estatuto que o novo filme inevitavelmente herda e reacende.

Desde os primeiros minutos, Fennell aposta em um visual assumidamente anacrônico, recusando qualquer ilusão de rigor histórico em favor de uma experiência sensorial e emocional. O filme não pretende “reconstruir” o século XIX, mas dialogar com ele a partir de um olhar contemporâneo. Essa proposta atravessa os figurinos, os cenários quase surrealistas e a trilha sonora marcada pelo toque brat de Charli xcx. Antecipando as críticas, a própria diretora fez questão de defender sua abordagem, enfatizando que se trata de uma leitura pessoal da obra, a ponto de colocar o título de sua versão entre aspas.

Eu, por exemplo, adoro Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, e nunca me importei com precisão histórica em adaptações, desde que elas sejam bem executadas. E O morro dos ventos uivantes é magistral nesse processo, ou ao menos durante a maior parte dele. O filme é hipnotizante, e a hibridização de períodos para construir esse universo é justamente o que sustenta a narrativa. Mais do que o roteiro, as atuações ou mesmo a direção, o que prende é a expectativa: como a casa vai se transformar ao longo da história, qual será o próximo figurino de tirar o fôlego, ou de que forma o enquadramento irá redesenhar o filme. No saldo geral, a adaptação de Fennell funciona como um novo olhar potente e promete emocionar. Foi a primeira vez que vi pessoas chorando alto em uma cabine de imprensa (e eu era uma delas).

Nenhuma qualidade, porém, isenta o filme de críticas. O embranquecimento de Heathcliff (interpretado por Jacob Elordi) é impossível de ignorar. No livro, o personagem é descrito como um “homem de pele escura”, enquanto na nova adaptação ele surge como um homem branco caucasiano. Esse apagamento já ocorreu em versões anteriores? Sim. Mas este era o momento ideal para Emerald Fennell romper com esse erro histórico recorrente e finalmente apresentar um Heathcliff mais fiel ao texto original. Escudar-se na ideia de “adaptação livre” apenas torna a escolha de elenco ainda mais problemática. Não se trata de questionar o talento de Elordi, que entrega mais um ótimo trabalho, mas de reconhecer o cansaço diante desse tipo de apagamento.

Com estreia marcada para 12 de fevereiro, a poucos dias do Valentine’s Day nos Estados Unidos, o filme chega aos cinemas envolto em uma ironia quase provocativa. Lançado estrategicamente no período em que o amor romântico é celebrado em sua forma mais comercial, O morro dos ventos uivantes funciona como um antídoto incômodo: uma história sobre obsessão, ressentimento e afetos que ferem mais do que curam. Talvez seja justamente aí que resida sua maior força: lembrar que nem todo amor é simples e que algumas paixões, como as de Heathcliff e Cathy, continuam assombrando muito depois do fim.

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