
A dupla de diretores Christopher Miller e Phil Lord está no cinema pop há algum tempo. Desde 2002, com Clone High, já trabalhavam com paródias, passando por Tá Chovendo Hambúrguer até chegarem ao primeiro live-action, Anjos da Lei, onde exploram a paródia dos filmes buddy cop, unindo-a ao seu humor ácido e infantil característico. Em Uma Aventura Lego, demonstram pinceladas de desafio ao status quo dentro de uma grande produção animada. É, inclusive, na animação que parecem mais brilhar: por serem visualmente inventivos, conseguem unir sua esperteza ácida a uma ingenuidade e sinceridade ímpares.
É, porém, na franquia do Aranhaverso que está o melhor texto da dupla. Inseridos em uma das propriedades mais icônicas do gênero de super-heróis, também um dos mais desgastados pelo consumismo dos anos 2010, eles usam o multiverso como ferramenta crítica. A ideia de múltiplos Homens-Aranha serve para comentar a era de reboots e versões vendáveis de um mesmo personagem. Ainda assim, Miller e Lord subvertem essa lógica ao resgatar uma sinceridade rara, deslocando o foco da figura do herói para o seu impacto no mundo. A noção de que “qualquer um pode ser o Homem-Aranha” rompe com a redução do personagem a um produto da Marvel voltado apenas para bilheteria e merchandising.
Desde Anjos da Lei 2, já demonstravam essa consciência da indústria ao transformar narrativas em legacy sequels. O filme ironiza as possibilidades infinitas de continuações, quase encerrando uma franquia que poderia se estender indefinidamente. A sequência do Aranhaverso aprofunda ainda mais esse gesto, sendo quase anárquica dentro dos limites de um blockbuster. Ela confronta os “algoritmos” que tentam aprisionar narrativas em estruturas repetitivas, que se reproduzem ad infinitum sem ultrapassar a superfície de quem veste a máscara.

A exploração do trauma da perda do Homem-Aranha sempre buscou uma dimensão universal. Mas quando a máscara está em um personagem negro, como Miles Morales, essa construção ganha outra camada. Reconhecer e subverter esses arquétipos se torna um gesto potente. Miles, como figura anárquica, precisa enfrentar esse “algoritmo” que tenta encaixá-lo em uma lógica previsível de mercado. Miguel O’Hara surge como um antagonista ideal: um latino que tentou romper com o sistema, falhou e acabou preso na manutenção do status quo.
Em Devoradores de Estrelas, a dupla se aproxima de um novo arquétipo: o herói da humanidade, o explorador, símbolo das conquistas estadunidenses. Ao mesmo tempo, subverte essa imagem ao questionar o conceito de bravura por meio da comédia, da ingenuidade e da sinceridade, suas maiores armas.
Ryland Grace é um professor que acorda sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem memória ou pistas de como chegou ali. Aos poucos, suas lembranças retornam, revelando que foi recrutado para o Projeto Hail Mary, uma missão para descobrir por que o Sol está morrendo. Ele precisa usar seus conhecimentos científicos para evitar a extinção da humanidade, mesmo que sua jornada, inicialmente solitária, tome rumos inesperados.
Neste longa, a experiência da animação parece finalmente penetrar de forma plena no live-action. É o filme mais maduro da dupla, ancorado no carisma de seus protagonistas. Ryan Gosling e o adorável Rocky formam uma parceria que desafia a lógica do extraterrestre ameaçador, transformando-o em uma figura doce e cativante.
A salvação da humanidade nasce da colaboração entre Gosling e um “estrangeiro”. Em tempos de políticas anti-imigração nos Estados Unidos, essa relação funciona como uma resposta simples, ainda que ingênua, a esse cenário.
O filme funciona muito bem graças à leveza da narrativa, ao carisma dos personagens e ao cuidado técnico. Os bastidores revelam uma rejeição ao uso excessivo de telas verdes, priorizando cenários físicos e soluções mais táteis. Isso cria um respiro dentro dos lançamentos atuais. Visualmente, o filme é deslumbrante, cheio de cor e vida.
Obras como Interstellar acabaram tornando a ficção científica mais árida visualmente, com planetas cinzentos e galáxias silenciosas, quase clínicas. O cinema, porém, também é capaz de traduzir o inimaginável em luz e fantasia. E é reconfortante ver Devoradores de Estrelas ir na contramão disso. Que venham mais filmes coloridos, leves e ambiciosos ao tratar de grandes ideias.















