Cloud: Kurosawa transforma materialismo em motor criativo e entrega o experimento do ano

Em Cloud, o diretor mergulha no coração do capitalismo tardio, erguendo um filme de ação que pulsa com a ansiedade de uma sociedade dominada pelo dinheiro
Cloud é uma das mais contundentes críticas visuais ao capitalismo contemporâneo / Foto: Divulgação

Os filmes de Kiyoshi Kurosawa sempre me fascinaram pela maneira como ele costura sua visão de mundo a partir das tramas sociais. Mesmo quando não se propõe a ser diretamente político, suas obras revelam retratos profundos do estado social do Japão em diferentes épocas.

Em Pulse (Kairo), por exemplo, Kurosawa explora a relação entre pessoas e internet — antecipando o isolamento causado pela digitalização da vida. Já em A Cura, ele investiga o desencanto de uma juventude sem perspectivas e a inércia de um Estado incapaz de amparar seus cidadãos. Agora, em Cloud, o diretor mergulha no coração do capitalismo tardio, erguendo um filme de ação que pulsa com a ansiedade de uma sociedade dominada pelo dinheiro.

Na trama, Ryôsuke Yoshii (Masaki Suda) é um operário de fábrica que ganha a vida revendendo produtos online. Após uma venda lucrativa, ele rejeita uma promoção, pede demissão e decide investir de vez no seu negócio, mudando-se para os subúrbios e transformando sua casa em armazém e escritório. É nesse novo ambiente que uma força invisível começa a rondá-lo — não um fantasma clássico, mas uma entidade feita de desejo, ansiedade e obsessão: o dinheiro.

Essa entidade, abstrata e ao mesmo tempo presente em cada gesto e decisão, molda a narrativa como um fio invisível. Ela não aparece diretamente em tela, mas está nas trocas, nos apertos de mão, nos botões de “comprar agora” e nos olhares ansiosos que preveem ou temem o lucro. É o “monstro” de Cloud, tal qual aquele de Kairo: uma presença que contamina, que distorce a realidade do protagonista até levá-lo a uma espiral de paranoia e ruptura.

Kurosawa articula essa tensão com seu estilo habitual, cadenciado, usando o silêncio, o vazio e a repetição para construir um suspense atmosférico. Em vez de multidões, vemos Yoshii cercado por caixas, computadores e interfaces. A mise-en-scène reflete um mundo onde o humano cede espaço ao algoritmo, e a ideia de sucesso corrói os vínculos mais íntimos. Há ecos de John Cassavetes aqui — nas entrelinhas, Kurosawa revela as contradições sociais que sustentam esse novo modo de vida.

O clímax do filme transforma o thriller em ação. Ryôsuke é posto à prova e precisa decidir se se renderá à lógica da riqueza ou tentará escapar dela — como um último suspiro de humanidade num mundo em colapso. No desfecho, Kurosawa levanta a cortina e nos apresenta o que há por trás da fachada de progresso: um palco devastado pelo excesso, pela competitividade e pela solidão.

Cloud é, assim, uma das mais contundentes críticas visuais ao capitalismo contemporâneo. E Kurosawa, um dos poucos diretores que conseguem transformar essa crítica em puro cinema.

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