Dead Souls: estilo impressiona, mas roteiro afunda o faroeste de Alex Cox

O trabalho foi exibido na segunda semana da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
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O longa ainda não tem data de estreia definida no Brasil / Foto: Divulgação

Dead Souls, faroeste de Alex Cox, parte de uma premissa curiosa: adaptar o romance homônimo de Nikolai Gogol para um território marcado por poeira, pistoleiros, humor ácido e uma estranheza que parece estar sempre prestes a romper a tela. Produção entre Espanha e Estados Unidos, o filme ainda coloca o próprio Cox no papel do vigarista Strindler, enquanto mistura política, comédia e absurdo em uma tentativa de transformar a literatura russa em um faroeste de personalidade bastante particular.

A ideia é boa. O problema é que Dead Souls parece mais interessado em tudo aquilo que pode fazer do que na história que efetivamente quer contar. O filme estreou internacionalmente na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e chega com uma riqueza visual que, em determinados momentos, sugere uma obra muito mais potente do que aquela que se desenvolve diante do espectador. Cox conhece o gênero, entende sua iconografia e sabe construir um mundo que parece existir para além dos limites do enquadramento. Falta, porém, encontrar um ritmo capaz de sustentar esse universo.

É na direção que Dead Souls encontra seus melhores momentos. A fotografia trabalha bem com grandes angulares e closes mais íntimos, alternando a dimensão quase épica das paisagens com a proximidade dos personagens. A sonoridade também contribui para essa atmosfera, criando um faroeste que parece simultaneamente familiar e deslocado. Cox demonstra domínio da linguagem, mas essa segurança formal acaba evidenciando ainda mais a fragilidade do roteiro.

Porque, quando a narrativa precisa avançar, o filme emperra. O humor raramente encontra o ponto certo e os personagens, que poderiam carregar uma estranheza fascinante, tornam-se progressivamente caricatos. Os conflitos se repetem sem acrescentar muito à história, enquanto situações que deveriam produzir tensão acabam diluídas em uma sucessão de acontecimentos que pouco alteram o destino dos protagonistas. A sensação é de que o filme está sempre prestes a chegar a algum lugar, mas prefere continuar circulando ao redor das próprias ideias.

Essa repetição é particularmente problemática porque Dead Souls tem material suficiente para ser muito mais interessante. A aproximação entre Gogol e o faroeste poderia produzir uma obra sobre ganância, morte, poder e absurdo com uma identidade rara. Cox até encontra essas possibilidades, mas não consegue transformá-las em uma narrativa capaz de envolver o espectador. O filme se torna, então, uma coleção de boas ideias, imagens marcantes e personagens excêntricos que parecem pertencer a um trabalho maior do que aquele que finalmente chega à tela.

No fim, Dead Souls é um filme que impressiona mais quando observado do que quando acompanhado. Há beleza nos enquadramentos, personalidade na direção e uma vontade evidente de subverter o faroeste tradicional, mas pouco disso se converte em envolvimento. Cox constrói um mundo interessante, mas não encontra uma história à altura dele. É um daqueles filmes em que os detalhes despertam curiosidade enquanto o conjunto provoca frustração: quanto mais se olha para Dead Souls, mais evidente fica o filme que ele poderia ter sido.

Filme visto na cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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