
Descobri David Robert Mitchell durante a pandemia. Já conhecia o diretor por It Follows, mas foi ao apresentar Under the Silver Lake para algumas pessoas que me envolvi de vez com seu cinema. Eu sabia que estava diante de um filme estranho, mas não imaginava o quanto aquela experiência coletiva seria marcante. A sessão funcionou tão bem entre nós que, naquela noite, surgiu a ideia de criar um cineclube dedicado a obras esquisitas. A ideia foi ganhando forma com o passar dos anos e, por isso, Mitchell acabou se tornando uma espécie de protótipo muito especial dessa relação que construí com o cinema entre amigos. É um diretor que guardo com carinho, mas também com enorme respeito.
É essa história que me traz, finalmente, a O Fim da Rua, longa que quase passou por Cannes 2026, mas que, reza a lenda, acabou fora da programação porque ainda não havia sido finalizado na montagem. Uma pena. Seria exatamente o tipo de filme capaz de despertar a curiosidade de um Festival e, quem sabe, encontrar um público maior. O que aconteceu, porém, foi o oposto: em julho e agosto de 2026, dividiu espaço com Odisseia, Homem-Aranha e tantos outros títulos mais populares, enquanto uma produção sobre… dinossauros tentava encontrar seu lugar. Uma pena, porque O Fim da Rua é um filmaço.
A premissa já entrega o absurdo que Mitchell pretende explorar: uma família do subúrbio americano acorda e descobre que dinossauros estão invadindo o bairro, sem qualquer explicação sobre como ou por quê. Não há tempo para compreender o fenômeno, buscar respostas ou encontrar uma solução. Resta apenas aceitar que, dentro de poucos dias, aquelas criaturas podem devorá-los vivos. E é justamente a partir dessa situação impossível que o filme encontra sua principal qualidade: ele quer, antes de qualquer coisa, entreter. Mitchell não transforma a invasão em alegoria política nem força comentários sociais sobre o mundo contemporâneo. Há, sim, pequenas observações sobre casamentos falidos que continuam de pé por status ou pelos filhos, mas elas nunca se sobrepõem ao prazer de acompanhar aquela família tentando sobreviver.

Esse encantamento está, sobretudo, na forma como Mitchell constrói o espetáculo. As cores vibrantes, os enquadramentos e as sequências de ação transformam os dinossauros em criaturas que parecem ter escapado diretamente de uma memória afetiva do cinema. A música acompanha esse movimento com precisão: fica cada vez mais agitada à medida que o caos cresce, criando uma espécie de rima entre o que ouvimos e o que vemos. Tudo parece pensado para recuperar a sensação infantil de assistir a uma aventura de dinossauros pela primeira vez, mas sem tratar essa nostalgia com ironia ou condescendência.
E talvez seja justamente aí que esteja o maior acerto de O Fim da Rua. Mitchell olha para o que veio antes não para repetir seus clássicos, mas para lembrar por que eles funcionavam tão bem. É um trabalho divertido, colorido, estranho e genuinamente encantador, daqueles que devolvem ao espectador uma vontade quase esquecida de voltar a outros filmes de dinossauros. No fim, talvez seja essa a melhor definição para o cinema de David Robert Mitchell: ele pega aquilo que amamos, passa pelo filtro de suas obsessões e devolve algo que parece familiar, mas que ainda consegue nos surpreender. E, depois de tantos anos, é bonito perceber que aquele diretor que me apresentou uma estranheza tão particular durante a pandemia continua encontrando maneiras de me fazer sair de uma sessão com vontade de descobrir o que existe depois da próxima esquina.

















