Backrooms: do fenômeno da internet ao cinema

Uma atmosfera sufocante, uma direção surpreendente e uma experiência que transforma o desconhecido em tensão do início ao fim
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Kane Parsons estreia em grande estilo, mas tropeça ao tentar explicar demais o seu mistério / Foto: Divulgação

Não é a primeira vez que um roteiro de cinema se baseia em algo que viralizou no mundo digital, nem sempre com grande sucesso de público ou de crítica. O que faz Backrooms se destacar, porém, não é apenas a inventividade ao transportar para o cinema esse universo misterioso e intrigante, mas também a revelação de Kane Parsons como um jovem diretor de enorme potencial. Seu trabalho demonstra segurança e personalidade, entregando uma direção sólida e impressionante para uma estreia em longa-metragem sob o prestigiado selo da A24.

Com alguns dos minutos iniciais mais tensos do ano, o filme começa em primeira pessoa, adotando a estética do found footage enquanto o espectador descobre aquele espaço inquietante junto ao protagonista. Salas vazias, iluminadas por uma luz amarela agoniante, formam um labirinto aparentemente infinito. Não há qualquer certeza sobre o que pode surgir no próximo corredor, enquanto ruídos estranhos e sons difíceis de identificar aumentam progressivamente a sensação de ameaça.

É um início bastante promissor, e o filme consegue reproduzir essa atmosfera em outros momentos. O problema aparece nos minutos finais, quando a narrativa abandona parte do mistério que havia construído para apostar em uma abordagem mais convencional. A mudança pode causar estranhamento em quem esperava que o longa mantivesse até o fim a atmosfera enigmática do começo. Para alguns, o desfecho pode soar exagerado ou até brega; para outros, representa justamente o momento em que Backrooms finalmente assume uma estrutura mais próxima do entretenimento hollywoodiano, com explicações e respostas para questões que antes funcionavam melhor quando permaneciam sem solução.

As atuações também ajudam a elevar o material. Chiwetel Ejiofor constrói um protagonista marcado pelo fracasso, pela frustração, pela raiva e, aos poucos, pela própria deterioração psicológica. Renate Reinsve, por sua vez, apresenta inicialmente uma personagem de postura profissional e aparentemente controlada, mas que esconde as marcas de um trauma. A atriz consegue transformar essa contenção em um elemento importante para o impacto de seus momentos finais.

No conjunto, o que mais chama atenção é a maneira como Backrooms, ao lado de filmes como Obsessão, ajuda a reforçar um movimento importante do cinema contemporâneo. Produções de terror têm ocupado espaço relevante nas bilheterias e, em alguns casos, levado vantagem sobre gigantescas franquias de super-heróis e outras propriedades já consolidadas. É um cenário que merece ser celebrado, especialmente quando obras tão diferentes encontram espaço para chegar ao grande público.

E Backrooms é, acima de tudo, uma experiência que merece a grande tela.

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