A violência e a culpa de um Robin Hood para os dias de hoje

A Morte de Robin Hood encontra um herói envelhecido, ferido e distante da imagem que o cinema construiu ao longo dos anos
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O filme é protagonizado por Hugh Jackman / Foto: Divulgação

Não deve ser fácil dirigir um filme sobre uma história que todo mundo conhece minimamente. Robin Hood já viu inúmeras vezes a luz dos refletores para contar sua trajetória como bandido, fora da lei, herói romântico e até como uma raposa que canta. Assim como Sherlock Holmes, Jesus Cristo e Batman, é um personagem que atravessou décadas e ganhou dezenas de versões, o que talvez explique a preguiça de alguns diante de A Morte de Robin Hood. O filme, porém, tem ao menos o mérito de entender que, diante de uma jornada tão conhecida, o caminho mais interessante talvez seja justamente tentar contá-la de outra maneira.

Dirigido por Michael Sarnoski e produzido pela A24, o longa traz Hugh Jackman no papel principal e Jodie Comer como a curandeira que encontra Robin Hood após um violento incidente. Ferido e à beira da morte, ele passa a receber cuidados e sobrevive em um santuário habitado por pessoas em situação de vulnerabilidade, entre idosos e crianças. Depois de um primeiro ato impactante, o filme desacelera e assume um ritmo mais contemplativo, interessado menos na aventura do herói e mais no homem que existe por trás da lenda.

Essa escolha dá ao filme tempo para desenvolver seus personagens e, sobretudo, o universo em que eles estão inseridos. A partir da dor de Robin Hood, Sarnoski constrói um protagonista atormentado pelo sofrimento que provocou no passado. Jackman encontra nessa fragilidade uma dimensão pouco explorada do mito: um herói cansado, depressivo e consumido pela culpa. A fotografia sombria e o desenho de som reforçam essa sensação de isolamento, criando ao redor dele uma atmosfera de silêncio e solidão que amplia o peso dramático da narrativa.

Há também uma leitura interessante sobre o próprio tempo em que vivemos. Em uma época marcada pela culpa, pela violência e pela necessidade constante de responsabilização, Sarnoski imagina que até um indivíduo historicamente associado à aventura e ao heroísmo poderia carregar um carma profundo. Nem todo ícone permite esse tipo de reinvenção, mas Robin Hood talvez seja particularmente adequado para isso. Afinal, por trás do fora da lei que rouba dos ricos e ajuda os pobres, existe também um homem que passou a vida cercado pela hostilidade.

A Morte de Robin Hood não pretende competir com as versões mais populares do personagem, nem parece interessado em repetir seus feitos mais conhecidos. Sua aposta está justamente em retirar Robin Hood do lugar confortável do mito e colocá-lo diante das consequências de sua própria trajetória. É uma escolha que pode frustrar quem espera aventura, mas funciona para quem aceita acompanhar uma versão mais melancólica e humana. No fim, o filme encontra sua maior força ao perceber que, para contar novamente uma caminhada que todos conhecem, talvez seja preciso olhar para aquilo que nunca havia sido contado.

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