Obsessão: um novo fôlego para o medo

O filme é simultaneamente simples, visceral, divertido e assustador
O filme segue em cartaz nos cinemas brasileiros / Foto: Divulgação

Se 2025 já foi um ano notável para o terror, a exemplo do sucesso dos premiados ‘Pecadores’ e ‘A Hora do Mal’, 2026 está dando provas de que deve seguir a mesma linha. Mal chegamos ao mês de junho e duas estreias recentes do gênero, ‘Obsessão’ e ‘Backrooms: Um Não-Lugar’, já somam, juntas, mais de 437,9 milhões de dólares em bilheterias no mundo inteiro. 

Mais algumas coincidências unem as duas obras: além de serem filmes independentes, ambos os diretores Curry Barker (‘Obsessão’) e Kane Parsons (‘Backrooms’) começaram suas carreiras com curtas-metragens no YouTube, e quebraram expectativas de faturamento antes mesmo de completarem 30 anos de idade. No Brasil, os longas continuam em cartaz, sem data prevista para chegarem à rede de streaming até o momento. Agora vamos falar especificamente de ‘Obsessão’ (2026).

O filme acompanha o protagonista Bear (Michael Johnston), que, frustrado com uma paixão não-correspondida por sua amiga Nikki (Inde Navarrette), recorre a um objeto místico, apelidado de Salgueiro do Desejo, para fazer com que ela se apaixone por ele. Desejo concedido: o amor vem, mas Nikki já não é mais a mesma.

Aqui temos a prova viva de que um bom roteiro sempre vence. O orçamento da produção foi baixo até mesmo para os padrões do terror, ficando em torno de 750 mil dólares, e as gravações duraram apenas 20 dias. O resultado foi uma história genuinamente bem contada, em que os momentos de tensão são construídos com cuidado e sustentados por atuações sólidas.

Johnston entrega exatamente o que o filme precisa: um romântico sensível, inseguro e tão inerte que chega a irritar. Incapaz de agir de maneira sincera sobre as próprias angústias, o protagonista altera para sempre a vida da amiga, sem consentimento, e passa então a sofrer as graves consequências. Já Navarrette aproveita cada segundo de seu primeiro papel de destaque no cinema e transita pelos extremos que a personagem exige. Nikki vai do riso ao berro e até ao choro em segundos, fazendo Bear e nós, espectadores, reféns de sua presença em cena.

Embora a direção de Curry Barker tenha percorrido um longo caminho desde seus primórdios no YouTube, o cineasta manteve a essência de trabalhos anteriores, como visto no curta ‘The Chair’ (2023). As tomadas focadas em um mesmo ângulo perduram alguns segundos além do normal, com algum canto escuro ao fundo ou um personagem se movendo fora do ponto central da imagem. A expectativa evolui para uma sensação de claustrofobia, acompanhada da certeza de que algo terrível está prestes a acontecer – você só não sabe quando.

Obsessão’ consegue ser simultaneamente simples, visceral, divertido e assustador. O filme tem referências claras à ‘Corra!’ (2017) e ‘Pearl’ (2022), mas isso não o impede de permanecer autêntico do início ao fim. É nas ideias originais e nos roteiros bem-escritos que está o fôlego que o terror tanto precisava.

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