
Acho que o que mais me surpreende em O Monstro da Lagoa Negra é perceber o quanto demorei para finalmente dar uma chance ao filme. Quando era mais novo, eu tinha uma preguiça enorme de assistir ao clássico da Universal. Fã de terror como sempre fui, nunca senti grande curiosidade por aquela história do homem-peixe escondido em algum canto da Amazônia. O visual da criatura nunca foi o problema. Era o conceito. Havia algo naquele sujeito anfíbio perseguindo exploradores no meio da floresta que me parecia esquisito demais para despertar interesse.
Até descobrir a história por trás da criação do filme. A ideia, segundo pesquisadores, teria ganhado forma a partir de uma conversa na casa de Orson Welles, quando um cineasta brasileiro teria relatado o caso de um amigo que ouvira falar de uma comunidade amazônica formada por seres com características de peixe. A anedota, verdadeira ou não em todos os seus detalhes, é boa demais para não alimentar a imaginação. E, de alguma maneira, ajuda a entender o próprio filme: uma fantasia construída a partir do olhar estrangeiro sobre uma Amazônia misteriosa, distante e quase completamente inventada. Uma pena o brasileiro nunca ter sido identificado.
Dirigido por Jack Arnold, responsável também por Veio do Espaço e O Incrível Homem que Encolheu, o longa transforma essa região em território de exploração, perigo e exotismo, obviamente. O problema é que boa parte dessa representação está carregada de estereótipos sobre o Brasil e sobre a Amazônia que, por mais absurdos que possam parecer hoje, ajudaram durante décadas a construir no imaginário estrangeiro uma versão fantasiosa do país.

A trama começa quando uma equipe de pesquisadores encontra, durante uma expedição amazônica, vestígios fósseis que sugerem a existência de uma espécie desconhecida. A descoberta é suficiente para mobilizar uma nova investigação, que leva o grupo até a chamada Lagoa Negra. O lugar funciona quase como uma fronteira entre o mundo conhecido e aquilo que os personagens ainda não conseguem compreender. E é justamente ali que surge a criatura.
O chamado Gill-man é uma mistura perturbadora de homem e animal, uma figura que parece ter saído de um pesadelo evolutivo. Para os cientistas, naturalmente, ele representa uma descoberta extraordinária. O problema é que a curiosidade científica rapidamente se transforma em obsessão. Em vez de simplesmente observar aquele ser em seu ambiente, os homens querem capturá-lo, estudá-lo e transformá-lo em objeto. E, quando a criatura reage, a expedição começa a se transformar em uma luta pela sobrevivência.
Existe aí uma estrutura bastante parecida com a de outros monstros clássicos do cinema, especialmente King Kong: o ser considerado monstruoso acaba demonstrando uma dimensão afetiva que os humanos não esperavam. No caso de O Monstro da Lagoa Negra, essa ligação acontece por meio da única mulher do grupo, Kay, interpretada por Julie Adams. O olhar da criatura sobre ela acrescenta uma camada quase melancólica à narrativa, porque o monstro não parece interessado apenas em atacar. Ele observa, acompanha e, de certa maneira, se encanta.
O gingado do monstro
A obra pode até ter um roteiro bastante repetitivo, já que as situações de perseguição encontram variações muito pequenas para conflitos que já vimos antes, enquanto a trilha sonora insiste em determinados motivos até quase esgotá-los. Ainda assim, há uma precisão impressionante na maneira como Arnold constrói cada sequência. As cenas subaquáticas continuam extraordinárias: a câmera acompanha a criatura com uma fluidez que transforma o lago em um verdadeiro espaço de suspense, enquanto a montagem sabe exatamente quando revelar o perigo e quando prolongar a espera.
A sequência em que Kay nada enquanto o Gill-man a observa debaixo d’água, por exemplo, é provavelmente a imagem mais bonita do filme. Existe algo quase hipnótico naquela composição: de um lado, a mulher completamente alheia ao olhar que a acompanha; do outro, a criatura escondida nas profundezas, aproximando-se lentamente. O que poderia ser apenas uma cena de perseguição ganha uma dimensão estranhamente romântica e até triste. É uma daquelas imagens que explicam por que determinados filmes continuam vivos décadas depois de sua estreia.
E há uma ironia interessante nisso tudo. O Monstro da Lagoa Negra é um filme sobre pessoas que invadem um ambiente que não compreendem, encontram uma criatura que não conseguem classificar e imediatamente tentam dominá-la. Só que, quanto mais o Gill-man aparece, menos ele parece um simples monstro. Aos poucos, é o comportamento dos seres humanos que começa a parecer ameaçador. Particularmente, adoro a cena em que a mocinha joga um cigarro na lagoa enquanto o bichão a observa. Há uma brincadeira especialmente melancólica na montagem, que transforma esse pequeno sinal de poluição em uma espécie de presságio. A partir daquele instante, o lar da criatura começa a se transformar, diante dos nossos olhos, em um cemitério.
Não considero o filme o melhor exemplar da galeria de monstros da Universal. Seu roteiro é limitado, algumas situações se repetem mais do que deveriam e há uma simplicidade narrativa que pode afastar quem espera algo mais sofisticado. Mas seria injusto ignorar o que Jack Arnold consegue fazer dentro dessas limitações. Quando o filme entra na água, a direção, a fotografia e a montagem encontram uma precisão que ainda impressiona.
Talvez seja justamente por isso que minha antiga preguiça tenha se transformado em diversão. O Monstro da Lagoa Negra não é uma obra-prima do terror, mas é um daqueles clássicos que conseguem ser muito mais interessantes quando finalmente nos damos ao trabalho de conhecê-los. Um filme de monstro genuinamente divertido, visualmente inventivo e com uma criatura que, no fim das contas, parece muito mais fascinante do que o próprio título fazia parecer.




















