O Medo Tá Foda, mas a vida, colorida 

A animação foi selecionada para o Kinoforum, o maior festival de curtas da América Latina
Com uma sonoplastia quase onírica — marcada por assobios e instrumentais suaves — e uma paleta em tons pastéis, a obra cria uma atmosfera que não pretende oferecer respostas, mas abrir possibilidades / Foto: Divulgação

O desenho é um convite paradoxal: ao mesmo tempo em que nos leva a uma viagem pela memória e resgata a infância, também parece nos propor um movimento oposto ao ritmo acelerado do mundo atual — não só em relação à velocidade, mas à capacidade de contemplar as paisagens ao redor.

Talvez seja isso o que mais me encanta nesse tipo de produção. Enquanto muitos filmes apostam em cortes rápidos e cenas frenéticas, as animações nos convidam a reparar nos detalhes sutis — como o som das rodas da bicicleta deslizando sobre a areia ou o vento bagunçando os cabelos das criaturas em cena.

O Medo tá Foda (2024) é o Trabalho de Conclusão do cineasta cearense Esaú Pereira, realizado no Curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes. Para quem ainda não está familiarizado com esse estilo, as produções de Esaú podem ser uma ótima porta de entrada. A animação mescla ficção com elementos do cotidiano das periferias, ambientada em cenários apocalípticos que vão de parques abandonados a placas e caixas d’água, compondo a tela com leveza e expressividade.

A partir dessa base, a animação constrói sua paleta de cores e movimentos, alternando entre fluidez contínua e o ritmo fragmentado de quadros fotográficos. O equilíbrio entre manhãs ensolaradas e noites iluminadas por uma única fogueira cria uma atmosfera envolvente, onde cada cena carrega camadas de sentido. Os diálogos, por sua vez, convidam à reflexão sobre os caminhos que escolhemos seguir — sejam eles envoltos em névoas de um futuro incerto ou perdidos em estradas que parecem não ter fim.

Mas a animação não se comunica apenas por meio dos diálogos. O dindin, por exemplo, surge como um dos principais símbolos desse convite à imaginação mencionado anteriormente — quase como um MacGuffin, guiando a narrativa de forma sutil, mas essencial.

A jornada com Revo (Mateus Honorio) nos convida a nos perder no deserto desde seu primeiro gesto — responsável por grande parte da tensão que move a narrativa — até suas interações com os demais personagens, tão enigmáticos quanto ele. Assim, entre incertezas e o cansaço que acompanha cada passo, somos apresentados a Biri (Mateus Franklin), Fran (Maria Adelino) e Daisy (Bruno Paes), figuras que parecem emergir daquele universo. É por meio do encontro com esses três que Revo começa a enfrentar o medo.

Revo é feito de borboletas, “voando feito loucas o tempo todo”. Talvez por isso esteja sempre com o rosto coberto — em um gesto de proteção, tanto de si quanto do dindin, cujo destino só é revelado nos instantes finais.

O Medo tá Foda é uma animação que escapa do óbvio. Em menos de vinte minutos, desperta o desejo de ver mais, de acompanhar novos personagens que possam surgir pelo caminho. Com uma sonoplastia quase onírica — marcada por assobios e instrumentais suaves — e uma paleta em tons pastéis, a obra cria uma atmosfera que não pretende oferecer respostas, mas abrir possibilidades.

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