Entre doçura e destruição: a inocência perdida de O Bolo do Presidente

O trabalho foi exibido na primeira semana da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
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O longa ainda não tem data de estreia definida no Brasil / Foto: Divulgação

O Bolo do Presidente, filme iraquiano de 2025 dirigido por Hasan Hadi, acompanha uma menina de nove anos encarregada de preparar um bolo para o aniversário de Saddam Hussein em meio à guerra e à escassez. A partir dessa tarefa aparentemente simples, o diretor constrói um retrato da infância atravessada pela violência e pelas limitações impostas pelo conflito.

Estrelado por Baneen Ahmed Nayyefa, o filme encontra sua principal força no carisma da protagonista. Ao lado de seu galo, a menina atravessa uma cidade devastada em busca dos ingredientes necessários para o bolo. A jornada, aos poucos, ganha outras dimensões e revela a vulnerabilidade de quem vive em um cenário de guerra, mas também a coragem necessária para seguir adiante.

A fotografia clara e quente cria um contraste expressivo com a destruição que cerca a personagem. Em vez de reproduzir visualmente o peso da guerra, Hadi opta por acompanhar a menina por ambientes que preservam certa luminosidade, tornando o contraste ainda mais incômodo. Os diálogos, por sua vez, mantêm a narrativa próxima do olhar infantil, sem eliminar a tensão presente em cada deslocamento.

A montagem contribui para esse equilíbrio. Precisa, evita excessos e permite que os espaços sejam explorados sem transformar a miséria em espetáculo. O resultado se aproxima, em alguns momentos, de um registro documental, especialmente pela maneira como a câmera acompanha a protagonista e observa as marcas do conflito ao seu redor.

É justamente nesse ponto que O Bolo do Presidente encontra sua abordagem mais interessante sobre a guerra. Hadi não precisa recorrer à violência explícita para expor seus efeitos. O medo de avançar, a escassez e a necessidade de cumprir uma tarefa banal em meio ao caos são suficientes para revelar a dimensão do conflito. A guerra aparece menos como espetáculo e mais como uma presença constante na vida cotidiana.

Nesse sentido, o filme se aproxima da ideia de que talvez seja possível, sim, construir uma obra sobre a guerra que seja também uma obra contra ela. Ao acompanhar uma criança tentando realizar algo tão comum quanto preparar um bolo, Hadi evidencia aquilo que o conflito destrói: a possibilidade de uma infância ordinária.

A jornada da protagonista transforma o bolo em uma metáfora de sobrevivência e resistência. Sem perder a delicadeza do olhar infantil, O Bolo do Presidente encontra uma forma própria de falar sobre a guerra, equilibrando tensão e sensibilidade e mostrando como a inocência pode persistir mesmo quando tudo ao redor parece conspirar contra ela.

Filme visto na cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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