Fé Morta: a deturpação da palavra de Deus e a confluência do discurso religioso com atividades criminosas

Texto de Lucas Lima, aprendiz da religiosidade afrodiaspórica, escritor e defensor da pauta racial
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A concepção do pecado, assim como a ideia de um ser diabólico e de um Deus punitivista, é uma narrativa cristã e, por essa razão, não pode conferir veracidade a correntes religiosas que expressam uma espiritualidade distinta / Foto: Divulgação

Em uma pesquisa intitulada “Respeite Meu Terreiro”, realizada pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) e pelo terreiro Ilê Omolu Oxum, os dados indicam que cerca de 74% dos líderes de religiões de matriz africana já sofreram algum tipo de violência, seja por meio de ataques verbais ou até de depredações de seus espaços sagrados.

A pesquisa buscou mapear a violência contra terreiros de culto afro e contou com a participação de líderes religiosos de 511 Casas de Axé. Também participaram da iniciativa o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e o Instituto Raça e Igualdade.

Ao tentar compreender as causas desses ataques direcionados aos templos de religiosidade africana, é preciso considerar o papel de certos discursos promovidos por lideranças religiosas que professam uma fé fundamentada em um cristianismo eurocêntrico. Esses discursos acabam alimentando, no imaginário popular, visões distorcidas, estigmatizadas, preconceituosas e racistas sobre outras correntes religiosas, especialmente aquelas historicamente marcadas pela perseguição e subalternização por parte do próprio Estado.

Na obra A Culpa é do Diabo, a professora doutora Carolina Rocha alerta para os perigos do uso instrumentalizado da fé cristã, chamando atenção para o estreitamento das relações entre o crime organizado e determinadas igrejas protestantes, sobretudo as chamadas neopentecostais.

Essa aproximação entre chefes do tráfico e lideranças religiosas evidencia uma dinâmica que combina a deturpação de textos considerados sagrados com o aliciamento do ego humano. Ao estreitar laços com o crime organizado, indivíduos mal-intencionados passam a arquitetar novas formas de conquistar espaço e influência dentro e fora de comunidades periféricas.

Nesse contexto, seguindo um roteiro perigoso que mistura fé e violência, cresce o número de traficantes que se autodeclaram evangélicos. Diante disso, surge uma questão inevitável: como é possível, nesse caso, servir a dois senhores?

A narrativa bíblica, diante desse cenário, passa a ser reinterpretada de maneira distorcida, como se houvesse uma licença divina para atacar, depredar ou até matar aqueles que não professam a fé cristianizada.

A demonização da religiosidade preta no Brasil é, antes de tudo, parte de um projeto colonial que permanece em curso. O sujeito colonizador, valendo-se da figura de Cristo na cruz, tratou de desqualificar, inferiorizar e subalternizar as crenças de diversos povos.

Nesse processo, a figura do Diabo, associada ao bem e ao mal, ao certo e ao errado, aos prazeres da carne e à luxúria, como aponta Carolina Rocha, foi construída historicamente como eixo central para justificar práticas de violência contra grupos que se encontram fora da ortodoxia cristã.

A própria concepção de pecado, assim como a ideia de um ser diabólico e de um Deus punitivista, é uma construção cristã e, portanto, não pode ser aplicada como verdade universal a outras tradições espirituais.

Ainda assim, indivíduos presos a dogmatismos reproduzem comportamentos prejudiciais ao meio social, além de limitarem seu próprio desenvolvimento crítico.

Quando observamos a figura de Exu sob uma perspectiva científico-filosófica, percebemos uma tentativa sistemática de diabolização de sua imagem, resultado, em grande parte, de interpretações equivocadas e, muitas vezes, manipuladas por aqueles que instrumentalizam a fé.

Exu, frequentemente alvo dessa ofensiva, é, nas tradições iorubás, uma força de movimento e comunicação: brinca, ri, provoca e fala com firmeza. Representado, por vezes, com um falo destacado, não simboliza pecado, como sugere a moral cristã, mas sim fertilidade, abundância e potência vital.

Para compreender melhor esse contexto, é importante lembrar que a resistência da população negra no Brasil se deu de múltiplas formas – e as religiões de matriz africana foram centrais nesse processo.

Como destaca o professor e jornalista Muniz Sodré, é fundamental promover a descolonização da mente e reconhecer o Terreiro como um espaço de saber ancestral, diversidade e potência social, especialmente para uma população que ainda vive sob condições de cidadania desigual.

Paralelamente a esse cenário, o coordenador-geral de análise de conjuntura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Pedro Souza Mesquita, informou que o Terceiro Comando Puro (TCP) está em expansão territorial pelo país, alcançando estados como Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina, Ceará, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.

A facção, rival do Comando Vermelho e do PCC, tem ganhado notoriedade ao associar seus integrantes a uma identidade evangélica, aproximando o tráfico de drogas de discursos religiosos.

No Ceará, essa presença já é perceptível. Segundo reportagem da BBC Brasil, símbolos como a estrela de Davi passaram a aparecer em locais como Maracanaú, acompanhados de pichações como “Jesus é dono do lugar”.

Em outubro do ano passado, ao menos quatro terreiros de umbanda teriam sido fechados por ordem da facção, que já possui histórico de intolerância religiosa no Rio de Janeiro.

O TCP, surgido em 2002 como dissidência do Comando Vermelho, mantém uma guerra armada por território, utilizando armamento pesado, explosivos e até drones.

Embora o Ceará tenha registrado queda nos homicídios, cidades do Estado ainda figuram entre as mais violentas do país. Maranguape lidera o ranking nacional, enquanto Maracanaú aparece entre as dez primeiras.

Diante desse cenário, cresce o temor de que a expansão do TCP intensifique disputas territoriais e agrave ainda mais a violência no Estado.

Importante destacar que a associação entre tráfico e religião não é exclusiva desse grupo. Pesquisas apontam que, nas décadas passadas, traficantes no Rio de Janeiro se identificavam com religiões de matriz africana, dinâmica que mudou com o avanço do neopentecostalismo.

Esse processo resultou, inclusive, na imposição de fechamento de terreiros em comunidades dominadas por facções.

O que se observa, portanto, é a instrumentalização da fé como ferramenta de poder. O combate ao inimigo passa a ser visto como “guerra espiritual”, transformando a violência em dever moral.

Esse uso distorcido da religião fere os próprios princípios cristãos e desvirtua os ensinamentos atribuídos a Jesus Cristo.

Fé, violência e colonialidade

Sob a ótica de Max Weber, essa violência não se sustenta apenas pelas armas, mas também por uma ética religiosa que legitima formas específicas de dominação.

Nesse contexto, o conflito armado é convertido em dever espiritual, enquanto estruturas econômicas e religiosas se entrelaçam, inclusive com o uso de igrejas como mecanismos de lavagem de dinheiro.

A ética, desde Sócrates, propõe uma reflexão racional sobre as ações humanas. No entanto, quando capturada por interesses de poder, pode ser distorcida.

O projeto colonial europeu, cristão e patriarcal, historicamente deslegitimou e violentou culturas que não se encaixavam em seu padrão.

No Brasil, apesar da ideia formal de Estado laico, a prática revela uma forte influência religiosa nas instituições.

A fé cristã ocupa posição privilegiada, enquanto outras tradições permanecem marginalizadas.

Discursos que demonizam o “mundo” e reforçam o conceito de pecado funcionam como mecanismos de controle, ao mesmo tempo em que o acúmulo de riqueza não é questionado.

Com o crescimento do evangelicalismo no país – que pode alcançar 40% da população até 2030 -, esse debate torna-se ainda mais urgente.

Diante disso, é fundamental enfrentar a questão racial e estrutural do Brasil, promovendo reflexões críticas capazes de combater as múltiplas formas de violência ainda presentes.

Um Estado verdadeiramente laico não pode servir a interesses religiosos, políticos ou, em hipótese alguma, ao crime organizado.

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