
Três anos após lançar sua visão sobre o conto de Pinóquio, Del Toro retorna à Netflix para dirigir mais uma adaptação de um dos monstros mais conhecidos da literatura mundial. E não, não estamos falando de Frankenstein apenas como mito: trata-se da criatura horrenda criada pelo cientista que buscava ser um deus.
Nesta última versão, a criatura é ainda mais inocentada, em contraponto a um Victor Frankenstein (Oscar Isaac) mais cruel e sádico. O maniqueísmo está mais evidente, com um roteiro que deixa explícito quem é o monstro e que não abre espaço para reflexões sobre a sutil dualidade entre os personagens. Del Toro não esconde seu amor pelos monstros e pelos seres estranhos e renegados pela sociedade.
A relação entre Elizabeth (Mia Goth) e a criatura é uma novidade entre as adaptações da obra de Mary Shelley e remete à filmografia do diretor, mostrando um casal composto por uma mocinha e o monstro, como em Hellboy e no vencedor do Oscar A Forma da Água. Mia Goth se consolidou como símbolo da “menina meio estranha”, enquanto Christoph Waltz repete tipos de personagens de seus últimos filmes. Charles Dance também segue a linha do pai abusador, no estilo Tywin Lannister de Game of Thrones. Esse typecasting funciona, e o elenco se encaixa bem nos papéis. A exceção é Jacob Elordi, cuja atuação funcional não se integra tão bem à caracterização da criatura.

Parece que Del Toro se distanciou um pouco de sua estética mais grotesca, talvez por se submeter à norma hollywoodiana de que tudo deve ser excessivamente belo, sem espaço para a feiura, algo notável quando se trata de uma criatura formada por restos humanos.
Os primeiros minutos já apresentam uma cena de ação que indica um filme hollywoodiano, projetado para capturar a atenção do espectador. A cinematografia chama atenção a cada frame: é uma obra grandiosa esteticamente, com figurino e direção de arte que não seguem rigor histórico, surpreendendo pelo exagero e pelas cores fortes.
Frankenstein tenta ser uma obra épica de quase três horas e trazer novos elementos à história, mas acaba se reduzindo a mais uma adaptação que encanta o olhar e repete o que já foi dito antes – e, muitas vezes, de forma muito melhor.














