O Testamento de Ann Lee: fé, música e impacto

Em meio à saturação das cinebiografias, o filme aposta em uma abordagem diferente e surge como um respiro ao previsível
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Amanda Seyfried imprime um olhar hipnotizante, de pureza quase etérea, que toma conta da cena e naturalmente eclipsa os coadjuvantes / Foto: Divulgação

Considerado um dos esnobados do Oscar 2026, O Testamento de Ann Lee, dirigido por Mona Fastvold, passou um pouco despercebido pelo público durante a temporada de festivais e premiações. Isso, no entanto, não impediu que a atuação de Amanda Seyfried fosse amplamente elogiada, e muitos defendem, inclusive, que ela merecia uma indicação ao prêmio de Melhor Atriz. Talvez os membros da Academia tenham optado por prestigiar apenas um filme biográfico dirigido por uma mulher, e Hamnet acabou levando essa vantagem. De todo modo, o Oscar já passou, e dar uma chance a essa obra subestimada pode mostrar como muitas pérolas são injustamente deixadas de lado.

É a partir dessa redescoberta que surge a pergunta central: quem foi Ann Lee? Um nome que não remete imediatamente a uma figura histórica célebre, ao menos para o público brasileiro. Fundadora dos Shakers (ou “Shaking Quakers”), grupo religioso surgido no século XVIII, ela liderava uma comunidade que expressava a fé por meio de danças e canções, sendo vista como uma espécie de personificação de Cristo. A narrativa acompanha sua trajetória pela voz de uma seguidora, que relembra desde a infância em Manchester, quando já demonstrava forte devoção, até o encontro com uma comunidade alinhada aos seus ideais, responsáveis por provocar controvérsias e repressão tanto do governo britânico quanto do recém-formado governo americano, que viam com desconfiança suas pregações sobre igualdade de gênero, celibato e a rejeição ao casamento.

Em meio à saturação das cinebiografias, O Testamento de Ann Lee se destaca ao adotar uma abordagem que foge do convencional, funcionando como um respiro diante do previsível. A divisão em capítulos, com títulos poéticos, aliada à narração de Thomasin McKenzie, preserva o caráter espiritual da obra e reforça que muitas das cenas são baseadas em lendas, uma liberdade em relação à precisão histórica que torna a experiência ainda mais envolvente.

Essa proposta encontra seu auge na escolha de contar a história como um musical, decisão especialmente acertada ao retratar um grupo que utilizava canto e dança como forma de expressão religiosa. As sequências performáticas são tão impactantes quanto belas, e Seyfried imprime um olhar hipnotizante, de pureza quase etérea, que domina a cena e naturalmente eclipsa os coadjuvantes. Não é exagero dizer que estamos diante da melhor atuação de sua carreira.

Seja religioso ou não, é difícil não se impressionar com as cenas de pregação, carregadas de cantos e emoção. A voz quase angelical da atriz, somada à trilha sonora, constrói uma experiência sensorial e quase mística. No fim, o filme convida o espectador a simplesmente se deixar levar pelas vibrações e melodias.

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