
Em 2016, o diretor e roteirista Bruno Bini realizou o curta-metragem Três Tipos de Medo, que explorava diferentes storylines ancoradas em um estudo sobre violência urbana. Dez anos depois, ele expande essa proposta em Cinco Tipos de Medo (2026), seu novo longa, retomando a mesma tese para investigar os diferentes temores que atravessam a sociedade. Se antes o curta funcionava como um laboratório narrativo, com montagem ágil e conexões mais soltas, o longa assume o desafio de sustentar essas ideias ao longo de quase duas horas – e é justamente nessa ampliação que surgem suas principais tensões.
É a partir dessa proposta que a trama acompanha Murilo (João Vitor Silva), um jovem músico que quase perde a vida em uma UTI, e seu envolvimento com Marlene (Bella Campos), enfermeira presa em um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), traficante local. Quando Sapinho é detido pela policial Luciana (Bárbara Colen), movida por vingança, ele passa a contar com o advogado Ivan, de intenções ocultas. A narrativa entrelaça essas cinco trajetórias em um caminho sem volta, atravessado por amor, medo e disputas de poder: enquanto Marlene hesita em se entregar a Murilo, Sapinho é visto como guardião da comunidade, apesar de controlar o crime.
A expansão da ideia original, no entanto, exige mudanças significativas. O cenário se desloca para o pós-pandemia de COVID-19, quando a percepção do medo passa a ser também mediada pela internet. Novas linhas narrativas entram em cena para ampliar o tempo de tela, mas nem sempre acrescentam profundidade. Se antes o dinamismo sustentava a proposta, aqui a narrativa se apoia demais na montagem, e o acaso assume um papel conveniente nos cruzamentos das histórias.

Essa dependência estrutural revela um diretor fortemente ancorado no texto e na edição, recorrendo a referências explícitas: Spike Lee, na presença da rádio comunitária, e Quentin Tarantino, nas múltiplas tramas e na não linearidade. No entanto, essas alusões soam artificiais quando a narrativa não encontra força própria. Diferentemente de Faça a Coisa Certa, em que o radialista ajuda a construir organicamente o bairro do Bronx, em Cinco Tipos de Medo o espaço não ganha vida, e ruas e casas não comunicam nada além do que está em cena.
Como consequência, o romance entre Murilo e Marlene carece de densidade emocional, se aproximando do melodrama novelesco. Os conflitos violentos até sugerem uma possível influência do western, tão caro a Tarantino, mas essa camada nunca se concretiza. A violência urbana é tratada de forma superficial, enquanto objetos simbólicos, como a arma de fogo, surgem de maneira recorrente – da experiência traumática de uma criança ao cotidiano banalizado da comunidade, até virar peça de coleção na casa de um vizinho: uma Luger, pistola alemã da Segunda Guerra Mundial.
Esse esvaziamento também se reflete nos personagens. Os protagonistas permanecem presos a funções rígidas: Marlene dividida entre dois homens, Sapinho limitado em seu carisma ambíguo e Murilo sobrecarregado pelo papel central. Os núcleos secundários servem apenas de suporte, enquanto figuras potencialmente mais trágicas são deixadas em segundo plano, reduzindo o impacto dramático e a reflexão proposta. Mesmo a tentativa de redenção de Marlene, nos momentos finais, não encontra tempo suficiente para se tornar convincente.
No fim, Cinco Tipos de Medo aposta em uma estrutura fragmentada para sustentar a atenção do público, mas, sem força emocional, a proposta se dispersa. A ambição de construir múltiplas camadas de tensão existe, mas se perde em conveniências, personagens pouco desenvolvidos e um ambiente que não se impõe. Resta um filme que chama atenção pela forma, mas não encontra consistência para sustentar o que propõe.

















