
O álbum Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2) foi lançado no dia 26 de novembro de 2021, considerado um trabalho recente, principalmente por apresentar diversos problemas e contradições no Brasil, que surgem desde a tradição até a contemporaneidade. Além disso, Gabriel Linhares da Rocha, nome verdadeiro do rapper Don L, utiliza-se de uma narrativa fragmentada e plural para discutir questões sociais urgentes, como o conhecimento e o fortalecimento de uma identidade nacional, as vivências negras, nordestinas e periféricas, o racismo estrutural, as memórias afrodescendentes, os afetos e desejos entre o povo negro e o contexto de luta pelos direitos.
Esta abordagem semiótica tem como enfoque dois parâmetros: o disco como um todo, ou seja, uma unidade textual autônoma composta por 17 músicas, mas também considerando o isolamento da faixa “Contigo pro que for”. Don L busca interagir com o público ouvinte por meio de uma narrativa repleta de diferentes e vastas sonoridades, que se estendem sobre elementos musicais do jazz, funk, MPB, trap etc.
O discurso desse trabalho tem como objetivo contar sobre uma hipotética revolução comunista no Brasil e abrir margem às reflexões sobre os comportamentos, as crenças e as lutas da sociedade brasileira, a partir do uso de recursos linguísticos que se articulam pela forma do rap de protesto, do discurso político e social e da crônica historiográfica.

O título do álbum chama bastante atenção, além de ser o segundo álbum da trilogia autobiográfica inversa do rapper, que se iniciou com Roteiro pra Aïnouz (Vol. 3), em 2017. Outro registro linguístico presente é a chamada sétima arte (cinema), pois faz referência ao diretor, roteirista e artista visual brasileiro Karim Aïnouz, mais conhecido pelos seus filmes Madame Satã, O Céu de Suely, Praia do Futuro e A Vida Invisível.
O rapper sugere que o disco contará uma história, assim como é seguido no roteiro de um filme, tratando-se de um enredo cinematográfico coeso, principalmente pelo uso de uma sequencialidade narrativa durante as faixas e pela presença de um vocabulário que remete a elementos visuais, por exemplo: viatura em chamas, guerrilha, canhões, sangue, e até mesmo pela arte da capa do álbum, contendo a AK-47, arma usada pelo exército do Vietnã contra o exército estadunidense.
Vale ressaltar a importância desse projeto literomusical brasileiro para o estudo da história e da sociedade, analisando semioticamente as tendências à heterogeneidade e homogeneidade, incluindo os aspectos de sentido cruciais ao discurso, como o uso da voz poética marcada pela crítica social e pelo lirismo.
Entendendo a análise pelo ponto de partida da descrição de um sistema de dependências internas ao objeto analisado (Hjelmslev, 1975, p. 137; Greimas; Courtés, 2008, p. 29), a abordagem semiótica leva o pesquisador a tentar compreender os tipos de relações parte/todo que constroem o seu objeto. Consideremos que o formato álbum, em si, sugere de antemão ao menos uma divisão de todo e parte, manifestada nas possibilidades de relação entre álbum e faixa, sendo esta um componente daquele (Mafra, 2021, p. 350). Por isso, inconscientemente percebemos uma divisão natural, contribuindo para a formação desse conjunto artístico maior, sendo possível a construção de um único sentido, de modo a não prejudicar a autonomia de cada canção, uma vez que já “funcionam” sozinhas.
Por fim, a análise semiótica da faixa “Contigo pro que for”, isolada do disco, tem como objetivo principal mostrar como o uso das coerções textuais próprias do álbum pode contribuir para efeitos de homogeneidade e heterogeneidade nos dois objetos, o que, por sua vez, colabora para a geração dos sentidos específicos.
A homogeneidade caracteriza-se pelos elementos de coesão, pela linearidade discursiva e pela unidade temática e estilística; já a heterogeneidade consiste nas rupturas temáticas ou formais, multiplicidade de vozes, polifonia discursiva e intertextualidade.
Dessa forma, o álbum Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2), como unidade textual autônoma, com base na noção de homogêneo, funciona como uma narrativa contínua repleta de sequencialidade, se incorporando como um roteiro. O rapper Don L cria um dinamismo por meio da estruturação da trajetória histórico-social contada faixa por faixa, uma vez que apresenta a isotopia da revolução comunista, materializando-se no vocabulário e nos “visualizers” das canções.
A coerência temática é outro aspecto que também contribui para entender o álbum como uma única unidade, pois temas como o racismo, a ancestralidade, a religião, a política e os afetos fazem conexões ao longo do disco, garantindo assim o sentido.
No nível das estruturas fundamentais do percurso gerativo do sentido, é preciso determinar a oposição semântica presente no texto. Em Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2), a categoria semântica fundamental é a hipotética revolução comunista vs. capitalismo (exploração; opressão). Essa oposição materializa-se de diversas formas no álbum, como nos versos:
Vila Rica: “Nós tivemos baixas incontáveis / Na real já foi uma revolução / Foi uma comunidade / Por cima de sangue derramado / Já fomos quilombos e cidades / Canudos e Palmares / Originais e originários”;
A Todo Vapor: “Minha cidade é selvagem / As ruas cortam corações / Ardem / Reforço as orações, amém / Pro casting do meu primeiro clipe (amigos) / Dos que permanecem vivos / Nem um terço tão em liberdade / E pasmem / Acima da estatística / De encarceramento em massa”;
Pânico de Nada: “Pânico de nada / Eles sangram como eu sangro / Pânico de nada / Vai ser como quiser Xangô”;
Volta da Vitória / Uns Manos e as Mina: “Primeiro o do santo / E dos que morreram lutando / Depois o nosso (agora o nosso) / Por cada guerreiro, cada trabalhador / Cada torre ou vapor / Cada morador na trincheira / Filho pra criar, reunião no colo / Tiros dando o ritmo da canção de ninar / Mãe solo”;
Trilha pra uma Nova Trilha: “Se fosse pra viver por isso / Eu não teria a bem dizer morrido pelo que acredito (quase) / Eu continuo na disposição primo / Se for pra nós viver por isso / Eu prefiro morrer pelo que eu acredito.”
A categoria fundamental eufórica ou positiva presente no álbum é a revolução comunista; a categoria disfórica ou negativa é o capitalismo. No nível discursivo, isso se desdobra em outras leituras temáticas, como escravização desde o período colonial, catequização forçada pelos portugueses, violência sofrida pelos negros, exploração e luta de classes.
A música “Contigo pro que for” pode ser analisada de forma heterogênea, apesar de fazer parte do álbum, porque atua de forma romântica, funcionando como um ponto de respiro entre as outras faixas. Além do amor romântico, Don L também canta sobre o amor político no contexto historiográfico brasileiro, apresentando a pessoa amada como sua parceira de luta. Nessa faixa, nota-se o teor de sobrevivência que se une ao amor, um tipo de afeto trabalhado dentro do disco.
O afeto presente como eixo temático ressalta que não se trata de um sentimento qualquer ou de uma relação idealizada, mas de uma relação negra que luta, resiste e sobrevive em meio às dores. “Contigo pro que for” cria conexões entre o amor e a luta, o pessoal/íntimo e o coletivo, possuindo versos que retomam a ideia de homogeneidade do álbum, mas capazes de se fechar para uma perspectiva semiótica distinta, a de “love song”. Por exemplo:
“Vou contigo pra onde for / Num boteco de esquina / Hit brega da Billboard / Beijo no frio do metrô”;
“Vem com todo teu amor ou então nem cola / Seja tudo que tu é e fé (amém, bora) / Se eu sendo quem eu sou te surpreende, ora / Que não seja menos que o suficiente, foda / Aceitar nossos defeitos e viver agora”;
“Vou contigo pra onde for / Love story num pós-show / Parapeito do Copan / Entre o salto e o teu amor”, entre outros.
A faixa isolada torna-se um texto relacional e é intensificada se vista dentro do conjunto Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2). Todavia, o álbum funciona como texto matriz, com sentido que se constrói a partir da articulação entre suas partes. O disco garante extensidade devido à quantidade de músicas, enquanto a intensidade enunciativa aumenta faixa a faixa, pela profundidade do discurso do cantor, incluindo força, afeto e ênfase. A canção isolada possui menor extensidade textual e maior intensidade, focando em um discurso intimista sobre o afeto.
Por isso, este trabalho é muito relevante para a popularização dos saberes históricos e sociais e para o entendimento do passado de um país que ainda reflete nos dias atuais. Trata-se da necessidade de resgatar a história violenta do período colonial, abrindo margem para novas possibilidades, caminhos, sonhos e futuros. A semiótica pode ser, assim, mais uma aliada nessa “guerrilha”.















