
Desde sua estreia em Hard Eight, Paul Thomas Anderson nunca escondeu seus gostos e referências: os ambientes de cassino que remetem à atmosfera de Robert Altman em California Split; a fotografia rigorosa e centrada de Stanley Kubrick; os temas familiares e suas complexas dinâmicas nucleares. Agora, em Boogie Nights, o diretor e roteirista expande seu alcance, misturando fatos com arcos narrativos, elementos autobiográficos, um terreno quase mítico e ecos da máfia estilizada de Martin Scorsese.
Eddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem de 17 anos sexualmente bem-dotado. Descoberto por Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor veterano, ele se transforma em Dirk Diggler, celebridade da indústria pornográfica no auge dos anos 1970. O sucesso, no entanto, o leva ao envolvimento com drogas, e a súbita fama logo cobra seu preço.
Em entrevista ao podcast do comediante Marc Maron, na qual revisita sua trajetória pessoal e profissional até Vício Inerente, Anderson relembra Boogie Nights com nostalgia. Ele conta que, quando criança em San Fernando Valley, morava em frente a uma casa usada para filmagens de produções adultas, observando à distância a movimentação dessas gravações.

Esse detalhe ajuda a entender a atmosfera nostálgica da fotografia empregada por Anderson ao retratar Los Angeles: a cidade aparece envolta em uma aura quase mística, enquanto a narrativa acompanha a ascensão e queda do protagonista, refletindo também sobre o próprio ato de filmar — uma entrega absoluta à paixão pelo cinema.
Anderson ainda conecta sua narrativa a um momento de transição histórica: a mudança das mídias. Assim como Cantando na Chuva (1952) abordava a passagem do cinema mudo para o falado, Boogie Nights trata da troca do analógico pelo digital — em que a magia do celuloide se dissolve diante da frieza técnica da imagem digital, desprovida da mesma intensidade.
A montagem acelerada e a fotografia fluida capturam com precisão a aura do excesso e dos ilícitos, alternando texturas e cortes ágeis para representar o crescimento vertiginoso do protagonista até sua queda, diretamente ligada à mudança de mídia. Nesse momento, Eddie/Dirk é forçado a confrontar sua própria subjetividade e percebe que, após ter sido devorado pela indústria, não sabe quem realmente é.
Anderson conduz tudo isso com impressionante maturidade para apenas seu segundo longa. Lança mão de uma estrutura quase caleidoscópica, em que múltiplas subtramas correm em paralelo, ascendem e decaem como peças de dominó. Une a intimidade de suas histórias ao pano de fundo da história do cinema, experimentando, na própria forma narrativa, aquilo que se tornaria o núcleo de seu próximo filme, Magnólia.
No fim, Paul Thomas Anderson entrega um longa vibrante e arrebatador, capaz de explorar inúmeros temas com energia avassaladora. Ao mesmo tempo em que presta homenagem a suas influências, ele começa a consolidar uma assinatura própria, delineando o estilo que o consagraria como um dos grandes cineastas contemporâneos.
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