
Nem sempre fui espectadora de produções brasileiras, muito menos cearenses. Como muita gente, cresci rodeada de filmes americanos e com direções, se não estadunidenses, europeias. O encontro com o audiovisual brasileiro aconteceu de três anos para hoje, quando, após a pandemia, retornei às salas de cinema, mas para ver pessoas com nosso rosto e sotaque em cena.
O que encontrei, a princípio, não me satisfez. Apesar de ver diretores cearenses à frente dos filmes ou mesmo atores fortalezenses como seus personagens principais, sentia que algo estava faltando. O resultado dessa inquietação foram sequências quase infinitas de perguntas a respeito do que nos faz ser nordestinos, quais as nossas tradições e os palavreados que marcam a cearensidade.
Luciana Vieira, Victor Costa Lopes e Wislan Esmeraldo me apareceram como excelentes respostas para esses e tantos outros questionamentos. O que esses diretores elaboraram em Se Avexe Não (2024) é um retrato colorido e bem humorado na medida certa.

A Selma (Juliana Maia) que acompanhamos em tela é a mesma que vemos todos os dias nas ruas da cidade. Selma é tão nossa que nos faz parecer da família.
O irmão evangélico, Waldisney (Rafael Martins) tem em seu nome a crítica desvelada. A questão da nomenclatura, inclusive, mostra que nada é por acaso. O inerente sobrenome da família “Nobre” não poderia ser menos irônico, já que, endividado, juntamente com seus dois filhos Silvanya (Bruna Pessoa) e Enzo Gabriel (Lucas Cavalcante), Waldisney procura ajuda em Selma, sua irmã mais velha. Há, ainda, a presença da mãe dos irmãos e avó dos netos, Divina (Fabíola Líper), que completa a salada geracional e aperta ainda mais o espaço dentro daquela casa.
Numa única temporada de dez episódios, o espectador se prende desde a comédia ao drama; passando pela tristeza e alcançando o encontro. Conflitos do dia a dia, relações amorosas inesperadas, responsabilidades e desejos são alguns dos dilemas apresentados, e essa micela não poderia ser menos plenamente amarrada do que se não tivesse a mão de Luciana Vieira. Como em Meninas do Benfica (2013), Luciana nos faz pensar sobre responsabilidades, pluralidade e desejos, além do debate acerca das potencialidades das redes sociais. Estas últimas muito na figura de Enzo, um típico influenciador que produz conteúdo até nas horas menos prováveis.
Wislan, por sua vez, demonstra sua capacidade de reinvenção, de ir desde um drama no estilo Motel Destino (2024) a uma comédia sem repetição desnecessária de gírias ou trejeitos, o que permite aos público dos outros estados aproveitarem tão bem a narrativa quanto seus conterrâneos. Em Se Avexe Não, grande maioria das graças estão contextualizadas e corroboram para o andar da carruagem. A presença de Victor amarra o trio com maestria. Como Esmeraldo, Costa ratifica aqui a incapacidade de rotulação da sua filmografia. O co-diretor de O Animal Sonhado (2015) mostra que fizeram bem em apostar na independência da série, que, desde 2018, concorria em editais de TVs públicas.
Ao fim, Se Avexe Não se orgulha de ser uma série cem por cento cearense, e com razão. Cada assitir da curta, porém completa em si, temporada, permite ver mais detalhes acerca da vida em uma casa nordestina, as quais apenas olhares cearenses da gema poderiam garantir. É uma série para toda a família, especialmente para àquelas que estão cansadas de produções que formam imagens caricaturadas de quem se é. Aqui, somos verdadeiros.