
O Estrangeiro acompanha Meursault, um francês indiferente e apático que vive na Argélia ocupada dos anos 1930 e demonstra uma completa aversão à vida. Quando sua mãe morre, nenhuma emoção parece atingi-lo; ele não derrama uma lágrima pela perda. No dia seguinte ao funeral, inicia um relacionamento com sua colega de trabalho, Marie, e sua rotina segue aparentemente normal.
Esse cotidiano, no entanto, é interrompido por um vizinho que o arrasta para uma série de situações obscuras, até que, em um dia quente de verão, uma tragédia na praia o leva ao julgamento. O distanciamento emocional de Meursault culmina em um assassinato, e o tribunal passa a escrutinar não apenas o crime, mas também seu caráter.
O uso do preto e branco e de uma encenação clássica é uma escolha interessante ao direcionar o olhar para esse protagonista insensível e alheio ao mundo ao redor. Ao adotar um ritmo de slow cinema, linguagem que normalmente me agrada em filmes de Kelly Reichardt, aqui, em O Estrangeiro, a experiência acaba me afastando. A opção por uma estética nostálgica, com enquadramentos por vezes quase oníricos, cria um contraste estranho com a apatia do personagem.

Vemos o mundo pela perspectiva de um homem que vagueia em busca de sentido, acumulando tensões como uma panela de pressão prestes a explodir, na expectativa de que algo enfim aconteça.
Ainda assim, pouco me envolve. Apesar da bela fotografia e da recriação cuidadosa da Argélia dos anos 1930, o filme imprime textura à encenação, mas revela certa inércia ao longo do desenvolvimento, muito guiado pela própria passividade de Meursault. Enquanto acompanhamos sua crise existencial, o filme também se debruça sobre as tensões da ocupação e suas consequências: o preconceito contra os árabes, o machismo do vizinho e os mecanismos sociais que sustentam essas injustiças.
Mesmo assim, a monotonia estética somada ao protagonista mantém tudo excessivamente frio, mesmo sob o calor tão central à obra. É apenas no terceiro ato, quando a narrativa se transforma em um drama de tribunal, que o filme ganha energia. Esse movimento cria o atrito necessário para que o personagem finalmente traduza os temas centrais, culminando em uma explosão final em que o diretor explicita suas ideias sobre o mundo.
É uma cena forte dentro dessa proposta cinzenta, que por vezes cria bons momentos, mas que, em sua maior parte, permanece inerte. No fim, o filme não sustenta suas duas horas de duração, que acabam soando por vezes enfadonhas no percurso.















